Everton Amaro/Fiesp
Everton Amaro/Fiesp

A empresários, Bolsonaro diz não ter ‘medo de CPI’; tema ambiental gerou preocupações

Reunião virtual foi promovida por Paulo Skaf, aliado do presidente; participantes viram tentativa de prestação de contas do governo

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2021 | 17h25
Atualizado 20 de abril de 2021 | 23h27

Em mais um esforço para se aproximar da elite econômica do País, o presidente Jair Bolsonaro e ministros participaram nesta terça-feira, 20, de um encontro virtual com empresários e executivos.  No evento promovido pelo aliado Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Bolsonaro disse que o seu governo não tem “medo de CPI”, em referência à comissão parlamentar de inquérito do Senado que vai investigar a conduta da administração federal no enfrentamento da covid-19. Às vésperas do início da cúpula do clima nos EUA, o presidente foi alertado de que o tema ambiental é uma preocupação dos empresários. 

A videoconferência com o Conselho Diálogo pelo Brasil, que reúne boa parte dos maiores grupos privados do País e é coordenado por Skaf, foi fechada. Na opinião de participantes ouvidos pelo Estadão, o evento foi quase uma prestação de contas do governo aos empresários.

Com uma comitiva de pelo menos sete ministros – Marcelo Queiroga (Saúde), Paulo Guedes (Economia), Tereza Cristina (Agricultura), Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Carlos França (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente) –, Bolsonaro afirmou também que “o Brasil não parou” e elogiou a gestão de Eduardo Pazuello na Saúde – um dos principais focos de apuração da CPI da Covid.

“Fizemos muita coisa no ano passado, desde a gestão Pazuello, e as vacinas são uma realidade hoje. Não temos medo de CPI, mas espero que essa ação não prejudique o nosso trabalho”, disse o presidente.

No evento promovido pela Fiesp, Bolsonaro reiterou a tônica do encontro do último dia 7, quando participou de um jantar em São Paulo com cerca de 20 empresários na casa de Washington Cinel, dono da empresa de segurança Gocil. Na ocasião, ele se esforçou para apontar um caminho de recuperação da economia e de aceleração do ritmo da vacinação. 

Nesta terça-feira, 20, Bolsonaro elogiou Guedes e voltou a criticar as medidas restritivas adotadas por governadores. “A política do fechar tudo, adotada por muitos governadores, foi completamente equivocada e destruiu milhões de empregos no Brasil.”

O ministro da Saúde fez a fala mais longa da reunião. Queiroga afirmou que cerca de 900 mil kits para intubação de pacientes graves com covid-19 chegarão nesta semana ao País, importados da Espanha, e disse que prevê “um horizonte melhor” de vacinação entre maio e junho. Ele defendeu que é preciso encontrar uma solução para evitar aglomerações no transporte público – uma prerrogativa dos Estados e municípios.

Queiroga também pregou o distanciamento social e o uso de máscaras, mas afirmou que um novo protocolo para uso de medicamentos do “kit covid” nos hospitais será anunciado em breve. Defendido por Bolsonaro, o tratamento precoce contra não tem base científica.

Segundo um dos maiores empresários do País, que como outros entrevistados pediu anonimato, o encontro não trouxe grandes surpresas e tampouco abordou perspectivas para o futuro ou planos estratégicos do governo federal. Até mesmo o cronograma de imunização apresentado já era conhecido – a imunização com vacinas importadas ficará para o segundo semestre –, sem grande possibilidade de antecipação.

Todos os ministros presentes fizeram uma pequena apresentação sobre suas pastas. Em relação às reformas, o governo tentou passar a impressão de que a administrativa poderia ser encaminhada na Câmara dos Deputados e no Senado.

‘Demandas’ ​

Skaf foi o único a falar em nome dos empresários. O presidente da Fiesp apresentou três “demandas” do setor, combinadas previamente em um grupo de WhatsApp: ampliação e aceleração da vacinação, reforma administrativa e um bom ambiente econômico. Skaf solicitou um encontro específico sobre o tema meio ambiente. Além de Ricardo Salles, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o embaixador Leonardo Athayde, negociador da agenda do clima, foram convidados para reunião. 

De acordo com um outro empresário, Salles causou constrangimento na semana da Cúpula do Meio Ambiente com um discurso que transfere para outros países a responsabilidade do estrago na imagem internacional do Brasil em relação ao tema. Outro executivo se queixou das “falas defensivas” do ministro do Meio Ambiente que, segundo ele, foram o ponto negativo do encontro.

Em sua participação, Salles falou genericamente sobre “ações” de sua pasta, disse que é necessário desenvolver economicamente a região amazônica e defendeu o pagamento pelos créditos de carbono. O ministro também apresentou um  cronograma de concessões de parques e falou sobre saneamento.

Cobranças

Inicialmente, o encontro do grupo de cerca de 40 dos maiores grupos privados do País seria feito exclusivamente com o ministro da Saúde. Porém, o evento foi ganhando adesões de autoridades do primeiro escalão do governo, inclusive do presidente da República.

Há cerca de dois meses Bolsonaro passou a buscar uma maior aproximação com empresários. Para isso tem mantido conversas com Skaf. No fim de março, economistas e banqueiros divulgaram carta na qual cobravam mudanças na condução do governo em relação à economia e ao combate à pandemia.

Conforme a lista divulgada pela Fiesp, estiveram presentes no encontro de ontem nomes como Abílio Diniz (Península), André Bier Gerdau Johannpeter (Gerdau), André Esteves (BTG Pactual), Wesley Batista Filho (JBS), Rubens Ometto (Cosan) e Luiz Carlos Trabuco (Bradesco). / PEDRO VENCESLAU, CRISTIANE BARBIERI, FERNANDO SCHELLER, TALITA NASCIMENTO, WAGNER GOMES e JULIANA ESTIGARRÍBIA

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