Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

Em disputa com Doria, Bolsonaro marca visita à Ceagesp, alvo do governo paulista

Presidente da companhia pediu a funcionários que compareçam à visita vestindo as cores da bandeira do Brasil

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 12h58

Em meio à disputa com o governador João Doria (PSDB), o presidente Jair Bolsonaro pretende visitar hoje a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), na zona oeste da capital paulista, para reinaugurar a Torre do Relógio, um monumento reformado por comerciantes e pintado de verde e amarelo.

Não está prevista, na agenda do presidente, nenhum anúncio de mudanças ou investimento no entreposto comercial. No ano passado, Doria anunciou um acordo com o governo federal para transferir a companhia para outro endereço, às margens do Rodoanel Mário Covas, e passar sua administração para a iniciativa privada – a Ceagesp é uma empresa federal. 

A promessa era que a mudança seria feita até 2024 e foi costurada com Salim Mattar, deixou a secretaria especial de Desestatização e Privatização em 11 de agosto. O governo paulista afirmou que a “Ceagesp e seus ativos” foram incluídos no Plano Nacional de Desestatização, conduzido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O Estadão procurou o governo federal para saber se os planos estão mantidos, mas não obteve resposta até a conclusão desta edição. 

Em outubro, Bolsonaro nomeou para a presidência da Ceagesp o coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo Ricardo Mello Araújo, que comandou a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). Em comunicado aos funcionários do entreposto, no fim da semana passada, Araújo pediu a funcionários que compareçam à visita do presidente vestindo as cores verde e amarela. A informação foi confirmada pela própria companhia, que se referiu ao pedido como “apenas um convite para que usemos essas cores como representação da bandeira nacional e da força que tem a Ceagesp como maior entreposto da América Latina”. 

Araújo e Bolsonaro andaram trocando elogios pela internet. No início deste mês, o presidente escreveu no Twitter que, com seu indicado, “a Ceagesp vai mudando”. O site oficial da companhia anunciou a visita de Bolsonaro e disse que “será a primeira vez que um presidente do País, eleito pelo povo, visitará a empresa”.

Agendas

Nos últimos dias, em meio às discussões sobre o plano de vacinação da população contra covid-19, Bolsonaro tem feito agendas ligadas a outros temas, como uma exposição dos trajes usados na posse presidencial e ao menos duas cerimônias de formatura de policiais. 

Em declarações públicas, o presidente tem mantido o embate com Doria sobre a vacina da covid-19. O governador paulista aposta no imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantã em parceria com a chinesa Sinovac. Ele já anunciou o início da vacinação para o dia 25 de janeiro – data em que é celebrado o aniversário de São Paulo. 

Bolsonaro, por sua vez, questionou em diversas oportunidades a vacina prometida pelo governo paulista. Em vídeo divulgado anteontem, o secretário executivo do Ministério da Saúde, coronel Elcio Franco, afirmou que Doria brinca com “a esperança de milhares de brasileiros” ao prometer uma vacina que “sequer possui registro nem autorização para uso emergencial”. 

O governo federal entregou no sábado um plano de imunização para o País que prevê vacinar 51,4 milhões de pessoas. O documento não firma uma data para início da vacinação, o que levou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski a pedir esclarecimentos e cobrar da pasta que apresente um calendário para a iniciativa. 

Para lembrar: as tentativas de privatização da Ceagesp

1996.  Com dívidas com o Banespa, o governo do Estado anuncia que pretende leiloar a Ceagesp por cerca de R$ 250 milhões. As tentativas não avançam. 

1997. A Ceagesp é federalizada e passa a ser vinculada aos Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A companhia entra na lista do Programa Nacional de Desestatização (PND).

2015. A companhia é excluída do PND pelo governo federal. O município de São Paulo assina um acordo com os ministérios da Agricultura e do Planejamento para estudar a mudança do entreposto a uma área próxima ao Rodoanel. 

2016. O grupo Nesp apresenta projeto para instalação do novo entreposto em Perus.  Fernando Haddad (PT), então prefeito de São Paulo, se reúne com o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, para apresentar o projeto. O petista assina um decreto que abre caminho para a transferência de endereço. 

2017. Então prefeitoJoão Doria (PSDB) chega a dizer que pretende transferir o entreposto em até três anos. Uma comissão estuda seis novos endereços para a companhia. 

2019. Doria, já governador, se reúne com o presidente Jair Bolsonaro em abril e anuncia acordo para transferência do controle da Ceagesp para o governo estadual. O governo federal não confirma. O governo federal inclui a empresa no Programa Nacional de Desestatização. Em outubro, o governo paulista anuncia acordo com o governo federal para transferência e concessão da Ceagesp.

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