Em discurso sobre o clima, Lula volta fazer referência a incidente com Serra

Presidente afirma que governo ia para reuniões munidos com 'aquele negócio da tropa usado pela tropa de choque para que não caísse um papelete na cabeça'

Tânia Monteiro e Leonencio Nossa, de O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 18h20

BRASÍLIA - Depois de atacar o candidato tucano à presidência da República, José Serra, chamando de "mentira descarada" a alegação de agressão que ele sofreu, no Rio de Janeiro, na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou uma cerimônia no Palácio do Planalto, sobre mudanças climáticas, para ironizar o incidente. Lula discursava sobre a política brasileira para redução do desmatamento quando fez uma referência ao caso, de forma truncada.

 

 

"Vencemos uma etapa importante na discussão do clima. Aos poucos, nós vamos compreendendo que ninguém é melhor do que ninguém, que o governo não se tranca numa redoma de vidro e acha que quem não concorda com o governo é contra. Portanto, o governo ia para reuniões como se fosse de forma preventiva, com aquele negócio que a polícia de choque usa para não tomar bordoada, ou seja, para que não caísse um papelete na cabeça".

 

 

A plateia, formada em sua maioria, por funcionários públicos, riu da piada do presidente. O próprio Lula deu uma risadinha de seu comentário. Lula não citou o nome Serra, mas ao falar em "papelete" se referia, indiretamente, à bolinha de papel que atingiu José Serra. Só que Serra, de acordo com laudo de peritos, foi atingido duas vezes. Primeiro, por uma bolinha de papel, e pouco depois, por um outro objeto, que parecia um rolo de fita crepe.

 

 

No dia seguinte, o presidente classificou como "uma farsa" a agressão sofrida pelo tucano. Não só Serra, como diversos setores, inclusive aliados petistas, como o governador reeleito da Bahia, Jacques Wagner, criticaram a postura do presidente Lula, que, acreditam, tinha de ter condenado a agressão, seja ela de que tipo fosse, e não endossado a atuação dos cabos eleitorais, incentivando a violência na campanha.

 

Pessimismo. No longo discurso de cerca de 30 minutos, Lula fez uma avaliação pessimista da convenção da ONU sobre mudanças climáticas, marcada para dezembro, em Cancún, no México. "Em Cancún, eu não espero que os grandes líderes compareçam. Eu acho que, como não tem acordo, é possível que nenhum deles queira se expor", disse ele, avisando que o Brasil estará presente para marcar sua "posição de vanguarda".

 

Lula avisou que a meta estipulada pelo governo de redução de 80% de desmatamento até 2020 poderá ser antecipada em quatro anos. "Nenhum país reduziu tão rapidamente suas emissões de gases e vai dar tamanha contribuição ao planeta como o Brasil", disse o presidente, acrescentando que "esta expressiva queda no desmatamento e nas emissões só está sendo possível porque investimos em métodos de monitoramento, fortalecemos e moralizamos os órgãos de controle ambiental e fomos duros contra a corrupção e contra aqueles que foram coniventes com o desmatamento ilegal".

 

 

O presidente acrescentou ainda que, apesar do intenso crescimento econômico, o país tem "o menor índice de desmatamento dos últimos 21 anos".

 

Em sua fala, o presidente não deixou de alfinetar os Estados Unidos, lembrando que eles não queriam fazer nada em relação à redução de CO2 "e para não fazer nada, queriam jogar os chineses como bode expiatório da emissão de gás o efeito estufa".

 

 

E completou: "nós não aceitamos que os chineses pagassem o pato porque, embora eles fossem um dos grandes países poluidores hoje, a industrialização deles começou agora há pouco. Nós queríamos que os outros pagassem pelo tempo que já emitiram os gases de efeito estufa".

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