Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Em discurso, chanceler compara Bolsonaro a Jesus Cristo

Durante cerimônia de formatura dos alunos do Instituto Rio Branco, Ernesto Araújo se emocionou e chegou a chorar

Julia Lindner e Daniel Weterman, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2019 | 16h15
Atualizado 03 de maio de 2019 | 22h39

BRASÍLIA - Diante de um grupo de diplomatas recém-formados pelo Instituto Rio Branco, o chanceler Ernesto Araújo chorou e comparou o presidente Jair Bolsonaro a Jesus Cristo. 

Em referência ao presidente da República, que estava presente na cerimônia de formatura, Araújo citou trecho do Evangelho que diz que “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Em outra passagem do Novo Testamento, nos Atos dos Apóstolos, a “pedra angular” é comparada a Jesus. “Esse Jesus, pedra que foi desprezada por vós, edificadores, tornou-se a pedra angular”, diz o trecho.

“De fato, a pedra que os órgãos de imprensa rejeitaram, que a mídia rejeitou, a pedra que os intelectuais rejeitaram; a pedra que tanto artistas rejeitaram, a pedra que tantos autoproclamados especialistas rejeitaram, essa pedra tornou-se a pedra angular do edifício, o edifício do novo Brasil”, disse Araújo.

Após o evento, o chanceler confirmou que pensou no presidente ao fazer a comparação. “Acho que se aplica ao que a gente viveu. Não é necessariamente só ele, mas a situação de qualquer pessoa que vive essa situação de ser certa maneira rejeitada e que se torna uma figura central. Acho que é importante a gente fazer esse tipo de reflexão”, disse ao ser questionado se comparou Bolsonaro a Jesus.

Araújo se emocionou diversas vezes ao longo do discurso. O chanceler chorou ao falar dos sacrifícios que os diplomatas precisam fazer pela carreira ao falar sobre sua família. Agradeceu o apoio da mulher, Maria Eduarda, e disse aos formandos que o apoio dos parentes será fundamental porque “nem tudo serão rosas”.

Os elogios a Bolsonaro não pararam na comparação com o Cristo. Em sua fala, o ministro de Relações Exteriores também afirmou que o governo luta por renovação e que Bolsonaro valoriza os diplomatas de maneira inédita.

“Nenhum presidente da República valorizou mais o papel do Itamaraty do que o senhor, nenhum teve visão mais clara sobre o papel da política externa para a transformação nacional”, enalteceu o chanceler, que faz parte da ala ideológica do governo e foi indicado ao cargo pelo escritor Olavo de Carvalho, considerado o guru dos bolsonaristas.

Araújo contou que, recentemente, Bolsonaro enviou a ele mensagem motivacional na qual dizia que “enquanto não faltar água no mar, não deixaremos de lutar”. “Temos a oportunidade única de mudar o Brasil e transformá-lo em uma grande nação”. 

Araújo diz Brasil ajudou ‘marcha irreversível’ da democracia na Venezuela

Sobre a crise no país vizinho, o chanceler afirmou que o Brasil ajudou “de maneira decisiva a criar uma marcha irreversível de democracia na Venezuela”. Também lamentou pessoas que, segundo ele, torcem a favor “da tirania e do cinismo” no país vizinho apenas por torcer contra o governo Bolsonaro, mencionando entre essas pessoas setores da imprensa.

Depois do evento, Araújo afirmou aos jornalistas que o líder opositor venezuelano Juan Guaidó não foi derrotado no último dia 30 ao convocar a população para pressionar Nicolás Maduro. A interpretação de Araújo foi que houve “avanço” no processo e que a pressão diplomática dos países do Grupo de Lima já fez efeito no país vizinho.

“No Grupo de Lima, hoje, nós queremos deixar muito claro o fato de que o que aconteceu no dia 30, no dia 1.º, não é de forma nenhuma uma derrota desse ímpeto pela liberdade, pela democracia. Ao contrário, isso exige que a comunidade internacional continue trabalhando, como vem trabalhando”, disse.

O ministro afirmou que os países que apoiam o autoproclamado presidente interino da Venezuela se esforçam para não deixar ser criada uma narrativa, “que seria falsa”, de um retrocesso no processo. Ele enfatizou que houve “um avanço” e que é preciso discutir novos elementos de pressão diplomática sobre a Venezuela.

Chanceler nega que Bolsonaro apoie reeleição de Macri na Argentina

Araújo negou que o presidente Jair Bolsonaro apoie a reeleição de Mauricio Macri na Argentina, mas destacou que há uma preocupação do chefe do Planalto com uma eventual eleição de Cristina Kirchner no país vizinho.

“Apoio acho que não é bem a questão. Acho que é simplesmente esse nosso compromisso com achar uma pauta, já temos uma pauta muito intensa com o governo Macri”, disse o ministro após almoço com diplomatas formando do Instituto Rio Branco, no Itamaraty.

Ele destacou que Bolsonaro deixou bem claro sua “preocupação” com um retorno de um regime anterior na Argentina. O chanceler afirmou ainda que o governo brasileiro espera desenvolver a relação “independentemente do governo” daquele país.

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