Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Em data histórica, sindicalistas protestam por direitos, mas contra impeachment

Em 1964, também em uma sexta-feira, 13 de março, ruas foram tomadas por sindicalistas, principalmente no centro do Rio de Janeiro, para apoiar o então presidente João Goulart

João Villaverde, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2015 | 15h43

Brasília - Depois de 51 anos, lideranças sindicais foram para as ruas em um 13 de março para defender o governo federal e buscar apoio para reformas trabalhistas. Esta é apenas mais uma coincidência histórica para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco (SP), Jorge Nazareno, que participa das manifestações sindicais hoje à tarde em São Paulo. "O governo Dilma tem uma série de problemas. Não dialoga com os trabalhadores e começou o segundo mandato com medidas provisórias que atacam nossos direitos. Mas ela ganhou as eleições. Vamos para as ruas defender nossas bandeiras, mas com a certeza de que não faz nenhum sentido falar em impeachment", afirmou Nazareno, ao Estado.

Em 1964, também em uma sexta-feira, 13 de março, sindicalistas tomaram as ruas do País, principalmente no centro do Rio de Janeiro, para apoiar o então presidente João Goulart. Naquele dia, no Rio, Jango promoveu o Comício da Central do Brasil, ao lado de sindicatos, do ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e do então chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, para anunciar as "Reformas de Base", que incluíam a estatização de campos de petróleo e a reforma agrária. O evento, no entanto, serviu de catalizador para o golpe militar, que ocorreu dias depois, em 31 de março.

"A presidente Dilma não dialoga. Isso não é bom para o movimento sindical. Mas não podemos aceitar o discurso de impeachment, que é oportunista. O Brasil é democrático e, no ano passado, Dilma ganhou as eleições. Foi apertado, mas ela ganhou. Não podemos ter esse retrocesso. O que precisamos é que o governo eleito trabalhe com a sociedade. Dilma começou muito mal", disse Nazareno, em referência às medidas provisórias 664 e 665, baixadas em 30 de dezembro, pouco antes do início oficial do segundo mandato. As medidas restringem o acesso a benefícios trabalhistas, como o seguro-desemprego e o abono salarial, e a benefícios previdenciários, como a pensão por morte e o auxílio-doença.

Outra coincidência histórica hoje envolve diretamente a organização comandada por Nazareno. O primeiro confronto político entre a ditadura militar brasileira e o movimento sindical ocorreu em 1968 e foi comandado justamente pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. A "greve de 1968", como ficou conhecida, resultou em um conflito aberto entre militares e sindicalistas e terminou em prisões e exílio de lideranças. O então presidente do sindicato, José Ibrahim, deixou registrado em entrevista concedida em 2008 ao jornal "Visão Trabalhista", editado pelo sindicato, que "se não houvesse Osasco em 1968 não haveria o ABC de 1978". Foi uma referência aos conflitos liderados por Luiz Inácio Lula da Silva, dez anos depois, à frente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP). Ibrahim faleceu em 2013.

O posicionamento de Nazareno, hoje, vai na direção contrária à determinação da central ao qual o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco está filiado, a Força Sindical. Segunda maior central do País, com mais de 2 mil sindicatos associados, a Força decidiu não participar de nenhuma das manifestações de rua: nem da que ocorre hoje, nem a prevista para domingo, que protestará contra Dilma.

Filiado ao PT, mas integrante da direção da Força, Nazareno afirmou que a central permite que os sindicatos sigam políticas próprias. Ele, no entanto, lamentou o horário das manifestações de hoje. “Estimulamos os trabalhadores a acompanhar a direção do sindicato. Um grupo vai, mas será pequeno. A maior parte dos metalúrgicos estará no meio do expediente no horário dos protestos”, disse ele. Segundo Nazareno, reformas importantes para os sindicatos estarão nos gritos das ruas de hoje, como a redução da jornada de trabalho, das atuais 44 horas semanais para 40 horas, e o fim do fator previdenciário.

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