Em crise no Brasil, MST ganha prestígio no exterior

No início deste mês, a organização recebeu o prêmio de entidade americana

Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2011 | 22h08

O prestígio do Movimento dos Sem Terra (MST) continua forte no exterior, apesar das suas crescentes dificuldades no Brasil. No início deste mês, a organização recebeu o Prêmio de Soberania Alimentar, concedido anualmente pela Community Food Security Coalition – entidade americana que agrega cerca de trezentas organizações voltadas sobretudo para o combate à fome, a segurança alimentar e agricultura sustentável.

 

No texto em que justifica sua escolha, a instituição americana afirma que, graças às lutas do MST, “mais de 350 mil famílias foram assentadas, em uma área superior a 17 milhões de hectares, e outras 90 mil estão organizadas em acampamentos e esperando títulos”. As ações do movimento, ainda segundo o texto, têm chamado a atenção, no Brasil e no exterior, para “a distribuição desigual das terras e a necessidade da reforma agrária”.

 

Essa não foi a única demonstração recente do prestígio entre militantes de esquerda e defensores de políticas alternativas no exterior. Em outubro, ao visitar o Brasil, para participar de um evento literário, o escritor e ativista de esquerda Tariq Ali fez questão de ir a Guararema, no interior paulista, visitar a Escola Nacional Florestan Fernandes – principal centro de formação política e educacional dos quadros do MST.

 

Durante palestra sobre conjuntura internacional para um grupo de 150 militantes, o paquistanês radicado na Inglaterra elogiou a combatividade da organização. “A principal referência de luta do Brasil é o MST”, disse ele, segundo relato publicado na página movimento na internet.

 

A própria escola de Guararema, a 70 quilômetros da capital, já é uma prova da simpatia que os sem-terra despertam: seus cursos têm atraído militantes da América Latina e da África. Grupos europeus, compostos especialmente por jovens, também visitam o lutar. Na volta à terra de origem, parte desses jovens acaba engrossando os comitês de apoio ao movimento. Hoje eles se espalham por quase 30 países, segundo assessores do movimento. A lista inclui Itália, França, Suécia, Suíça, Holanda, Finlândia, Alemanha, Portugal.

 

Nos Estados Unidos o MST conta com a simpatia de Noam Chomsky, um dos nomes mais conhecidos entre os pensadores de esquerda naquele país. Em Nova York os sem terra são representados pela estudante Janaina Stronzake, que faz parte de uma família de assentados no Paraná.

 

Além de viajar pelo país para conhecer experiências de agricultura sustentável e falar do trabalho do MST, Janaina participa de eventos públicos. Em outubro falou durante um encontro sobre soberania alimentar na ONU e esteve em Wall Street, onde manifestou solidariedade aos grupos que ali protestavam contra a política financeira e o desemprego.

 

No Brasil, o MST enfrenta uma grave crise, que se manifesta sobretudo no esvaziamento de seus acampamentos. O crescimento do nível de emprego no País beneficiou sobretudo as faixas de salário mais baixo, de onde saíam em grande parte os interessados em participar das manifestações pela redistribuição de terras no País. O programa Bolsa Família também teria ajudado a esvaziar as áreas de acampados.

 

Embora os responsáveis pela escolha do MST para o Prêmio de Soberania Alimentar tenham anunciado que existem cerca de 90 mil pessoas acampadas, o número real gira em torno de 30 mil. É um quantidade quase dez vezes inferior à que existia em 2003, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu primeiro mandato.

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