Em carta, Lyra se defende e ataca caráter de Renan

Usineiro cobra explicações do senador e o chama de "hipócrita" e "bajulador"

Rosa Costa, do Estadão,

16 de agosto de 2007 | 21h59

Em carta aberta distribuída aos órgãos de imprensa, o usineiro e ex-deputado João Lyra se defende das acusações feitas contra ele por seu ex-sócio e presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), cobra-lhe explicações à Nação e o chama de "hipócrita", "bajulador", de má-formação de caráter e de lhe fazer "calúnias". O senador afirmou que Lyra é acusado de "vários homicídios, inclusive crimes de mando".   Veja também:Cronologia do caso Renan    Veja especial sobre o caso Renan   Na carta, de duas páginas, Lyra afirma que "tamanha é a hipocrisia" da atitude de Renan, que, se ele (Lyra) "fosse um malfeitor" como diz o senador, como é que este explicaria à Nação o fato de ter sido recebido no gabinete da Presidência da República quando Renan assumiu o cargo de presidente interinamente. Leia a íntegra da carta: Senhor Senador, Serviu-se Vossa Excelência da tribuna do Senado da República para, mais uma vez lançando mão de subterfúgios e ocultações, agir sem assumir responsabilidade pelos próprios atos, a exemplo da compra de veículos de comunicação efetuada em Alagoas.  Creditou a adversários paroquiais o desvendamento da sua história, até então desconhecida. Desnudo em seu lado obscuro busca, em cada palmilhar, novos culpados para os sucessivos e comprovados desatinos praticados, numa vã tentativa de encobri-los.  Em ato final, de forma indefinida, tenta atrair-me à contenda, ao solerte argumento de que sou acusado de crimes de mando e de sonegação fiscal. Não cairei no ardil. A carapuça não me cabe e a acusação não me toca.  Nós dois sabemos do embuste contido nessas palavras. Eu, por consciência própria, sei que não os cometi e não os respondo. O senhor, pela proximidade comigo, por atos, posturas e preceitos, sempre revelou e avalizou publicamente esta certeza de pensar.  Tamanha é a sua hipocrisia, que fosse eu o malfeitor revelado em suas palavras, como explicaria à Nação ter-me recebido no Gabinete da Presidência da República, quando passageiramente assumiu o cargo? Como explicaria à Nação as incontáveis vezes que me convidou ao seu gabinete na presidência do Senado para longos e demorados diálogos sobre nossos negócios e projetos?  Não tem como explicar, não é mesmo, Senador? Até porque, se verdadeiras fossem suas palavras, inegável, logo por este ângulo, o seu despreparo para o exercício do cargo.  E mais: como explicaria à Nação brasileira a razão pela qual, enquanto Ministro da Justiça e até bem pouco tempo como Senador, banqueteava-se pelos céus do Brasil em minhas aeronaves sem qualquer pagamento?  Será que Vossa Excelência, sendo a reserva moral que prega ser, se verdadeiramente o fosse, aceitaria receber tantas e tamanhas vantagens indevidas de um contumaz criminoso? Evidente que não!  Recebeu-as porquanto ciente e consciente da minha inteireza procedimental.  Basta, Senador! O silêncio tumular de Vossa Excelência a respeito destas indagações somente serve para pôr em caixa alta a deformação moral do seu caráter.  Enquanto fui-lhe útil, enquanto minha estrutura financeira estava a servi-lo, nunca fui acusado por Vossa Excelência de cometer crimes. Ao contrário, de sua parte era alvo de sorrisos fáceis e bajulações.  No dia em que ousei divorciar-me politicamente de Vossa Excelência, por não aceitar amarras nem cabrestos, passei a ser alvo de verdadeiro procedimento calunioso, que o senhor hoje, de modo fingido, afirma ser vítima.  Os hipotéticos crimes a mim atribuídos em sua desleal fala somente existem na ignominiosa calúnia concebida por sua mente torpe. Dos feitos citados em sua tosca oratória, não existe um único processo em curso contra mim. Quanta vilania!  Por crimes, responde o senhor e sua família. Eu, ao contrário, por desenvolvimento, por geração de empregos e receitas para Alagoas e para o Brasil.  A origem do meu patrimônio, como o senhor bem o sabe, Senador, não provém de atividade criminosa. É produto, há mais de 58 anos, de trabalhos diuturnos e ininterruptos e é absolutamente compatível com meus ganhos empresariais. Já a origem do de Vossa Excelência, bem, a Polícia Federal em breve explicará, já que o senhor, nem nos seus mais profundos devaneios, logrou êxito em fazê-lo, mesmo criando bois de ouro.  Aliás, Senador, sua conhecida avareza e desenfreada ambição pelo poder, sua malabarista tentativa de equilibrar-se no cargo, mesmo diante das mais elementares verdades que demonstram sua inaptidão moral para exercê-lo, bem demonstram a pequenez do seu caráter.  A propósito, outro não pode ser o conceito sobre um homem que se socorre dos préstimos de um lobista para alimentar sua prole. Este proceder, para vergonha de Alagoas, revela mais ainda a estatura miúda de sua personalidade.  Cale-se, Senador, nem mais uma palavra! Respeite a sociedade brasileira! Chega de mentiras! Não é de agora que lhe socorro com favores financeiros. Todo mundo sabe disso. Firmamos negócios em veículos de comunicação e é verdade. Foi um bom sócio, repito. Honrou integralmente os compromissos assumidos.  Alagoas inteira é testemunha desta história. Em cada esquina, em cada casa, em cada recanto alagoano não existem dúvidas sobre essa condição societária.  Não fui eu, senador Renan, o causador de sua desgraça. Portanto, não me agrida com calúnias. Foi o senhor mesmo e por seus próprios atos. Não me atribua pecados que não os tenho. Perca o cargo, mas procure manter um resto de dignidade, se alguma ainda lhe resta.  De minha parte, só tenho a lamentar tanto talento desperdiçado. Atenciosamente, João José Pereira de Lyra 

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