Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Em carta a Bolsonaro, Pfizer alertou que rapidez para contratar vacinas era ‘crucial’

Correspondência foi entregue à CPI da Covid pelo ex-secretário de Comunicação Presidência Fábio Wajngarten; segundo ele, documento, enviado em setembro, foi ignorado pelo Planalto por dois meses

Amanda Pupo, Matheus de Souza e Pedro Caramuru, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 16h44

BRASÍLIA E SÃO PAULO – Em carta enviada pelo CEO da Pfizer, Albert Bourla, ao presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2020, a empresa alertou que havia feito uma proposta ao Ministério da Saúde para fornecer a vacina contra covid-19, até então em desenvolvimento, sem que tivesse obtido uma resposta do Brasil. Bourla advertiu que, apesar de todos os esforços que fazia para que doses do imunizante – à época em fase de testes – fossem reservadas ao Brasil, a celeridade nas negociações era “essencial” e “crucial” em razão da alta demanda de outros países e ao número limitado de doses em 2020. A correspondência teria ficado dois meses sem resposta – leia aqui a íntegra da carta.

Segundo o CEO da Pfizer, até aquele momento representantes da empresa no País já haviam se reunido com o Ministério da Economia e com a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, e com o Ministério da Saúde.

“Apresentamos uma proposta ao Ministério da Saúde do Brasil para fornecer nossa potencial vacina que poderia proteger milhões de brasileiros, mas até o momento não recebemos uma resposta. Sabendo que o tempo é essencial, minha equipe está interessada em acelerar as discussões sobre uma possível aquisição e pronta para se reunir com vossa excelência ou representantes do governo brasileiro o mais rapidamente possível”, afirmou Bourla na carta.

A correspondência foi entregue à CPI da Covid nesta quarta-feira, 12, pelo ex-secretário de Comunicação Social da Presidência Fábio Wajngarten. Ele contou que, ao tomar conhecimento do documento, em novembro, respondeu no mesmo dia ao escritório da Pfizer em Nova York. 

Segundo Wajngarten, até então nenhuma autoridade tinha retornado ao CEO da Pfizer, que também endereçou a carta ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão, ao então ministro da Casa Civil (hoje Defesa), Walter Braga Netto, ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e ao embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Foster.

No documento, Bourla relatou que a vacina da Pfizer era uma opção “muito promissora” para ajudar o governo brasileiro a mitigar a pandemia da covid-19. “Quero fazer todos os esforços possíveis para garantir que doses de nossa futura vacina sejam reservadas para a população brasileira, porém celeridade é crucial devido à alta demanda de outros países e ao número limitado de doses em 2020”, alertou o CEO da farmacêutica.

Bourla descreveu o ensaio clínico pelo qual passava o imunizante, produzido em parceria com a empresa alemã BioNtech. “Atualmente, estamos conduzindo um ensaio clínico em grande escala de fase 2/3, com pelo menos 30 mil participantes em um grupo seleto de países em todo o mundo, incluindo dois centros de pesquisa no Brasil com cerca de 2 mil brasileiros voluntários. Estamos no caminho certo para buscar uma revisão regulatória de nossa vacina em outubro de 2020, com centenas de milhares de doses já produzidas”, disse.

O CEO da Pfizer também escreveu sobre o acordo que a farmacêutica tinha fechado com o governo dos Estados Unidos, ainda sob a administração de Donald Trump, para fornecer 100 milhões de doses da vacina, com a opção de oferecer 500 milhões de doses adicionais.

“A Pfizer tem o maior contrato com o governo dos EUA em termos de valor para uma vacina contra a COVID-19 até o momento, demonstrando a confiança que a Administração do presidente Donald Trump tem em nossa ciência e nossa capacidade de produção”, destacou o executivo, lembrando, ainda, de acordos com o Reino Unido, Canadá, Japão e “vários outros países”, além de negociações finais com a União Europeia para fornecimento de 200 milhões de doses. “Caso Vossa Excelência ou membros de sua equipe tenham alguma dúvida, não hesitem em entrar em contato comigo diretamente ou com minha equipe no Brasil, incluindo o Presidente da nossa subsidiária no país, Carlos Murillo”.

Apesar da iniciativa da empresa, o Brasil só fechou o primeiro contrato com a Pfizer em março deste ano, cerca de sete meses depois do envio da carta. Em janeiro, o Ministério da Saúde chegou a criticar a proposta de venda de doses do imunizante. Na época, a pasta disse em nota que a aquisição de número restrito de doses funcionaria mais como uma “conquista de marketing” para a fabricante, mas seria uma “frustração” para os brasileiros e ainda classificou como “leoninas” e “absurdas” cláusulas do contrato proposto.

Como mostrou o Estadão/Broadcast, o governo poderia ter editado ainda em janeiro uma Medida Provisória que daria a segurança jurídica necessária para o Ministério da Saúde avançar com a compra do imunizante. A primeira versão de uma MP publicada em 6 de janeiro continha um artigo que autorizava a União a assumir a responsabilidade sobre efeitos adversos que os imunizantes pudessem apresentar - importante no caso da Pfizer. No entanto, o Executivo contrariou órgãos técnicos e excluiu o trecho da medida.

A cláusula só entrou em vigor por uma reação do Congresso, especificamente uma iniciativa do Senado. Em 24 de fevereiro, os senadores aprovaram um projeto de lei que permitia que os compradores assumissem a responsabilidade civil pela imunização.

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