Em busca de um recomeço político

Reconciliado com Lula, Mercadante calcula que sairá maior da disputa, qualquer que seja o resultado da corrida pelo governo de São Paulo

Malu Delgado, de O Estado de S.Paulo

17 Maio 2010 | 19h09

É somente na primeira pessoa do plural que o senador Aloizio Mercadante refere-se ao governo Lula. "Nós fizemos" e "nosso governo" são frases corriqueiras, sobretudo no momento em que ele se apresenta como candidato ao governo e insiste em transpor o Brasil para São Paulo, na esteira dos indicadores econômicos positivos do governo Lula.

 

Ao abandonar a reeleição ao Senado e acatar a sugestão de Lula de disputar o governo estadual, Mercadante não embarca numa missão suicida. Embora o discurso petista seja de excessivo otimismo para desbancar a tradicional vantagem de 4 milhões de votos dos tucanos no Estado, há uma outra leitura. Mesmo derrotado, o senador passaria a ser a principal referência do PT paulista e cacifando-se para outra disputa crucial: a da Prefeitura em 2012. A avaliação, no PT, é que, a despeito do resultado de agora, Mercadante terá uma vitória política que o credenciará como principal liderança do PT em São Paulo. Nos cálculos do próprio Mercadante, ele sairá maior da disputa.

 

Ainda que papel de Mercadante na "Era Lula" pareça menor que o exercido por José Dirceu, Antonio Palocci e Dilma Rousseff, a longa trajetória ao lado do presidente o credencia a conjugar o verbo no plural. "Eu estava no final dos anos 70 nas primeiras greves em que Lula emergiu como uma grande liderança sindical da época. Estive na campanha dele em 1982 ao governo de São Paulo, ajudei a coordenar a campanha dele em 1986 a deputado federal, andei com ele o Brasil inteiro em 1989, fui candidato a vice-presidente da República em 1994, fui um dos coordenadores da campanha dele em 1998, em 2002 fui candidato ao Senado e ele à Presidência, e em 2006 fui candidato ao governo e ele à Presidência. Vivi todas as campanhas, por dentro, cada caminhada, em cada pedaço deste País", relembra.

 

Dossiê

 

A eleição de 2010 dá ainda a Mercadante a oportunidade de "zerar o jogo político de 2006". Na derrota no primeiro turno para o tucano José Serra, Mercadante viveu seu pior momento político quando integrantes de sua campanha - depois chamados por Lula de "aloprados" - foram flagrados ao tentar comprar um dossiê contra figurões do PSDB. A repercussão do caso afundou sua campanha e contaminou a disputa ao Planalto, afastando Mercadante do presidente.

 

Nos bastidores do PT, é recorrente a informação de que Lula costuma reclamar do senador, mas o considera um companheiro leal. A despeito dos reveses políticos, Mercadante arrancou de Lula o compromisso de uma participação direta dele e de Dilma na campanha de 2010 em São Paulo. "O presidente Lula participou ativamente do processo de convencimento de Mercadante e também atuou para o fechamento da candidatura", afirma o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. "À medida que ficava claro que a candidatura de Ciro não aconteceria, lançamos mão do melhor candidato."

 

Além das sombras de 2006, serviu para enfraquecer Mercadante a promessa pública daquilo que não podia cumprir. Líder do PT no Senado, afirmou no ano passado que deixaria a função em caráter irrevogável por discordar da blindagem que o governo e o partido davam ao presidente da Casa, José Sarney , após ser revelado o esquema irregular dos atos secretos. A força do irrevogável dissolveu-se no ar e o petista ficou na liderança, dizendo obedecer a uma ordem de Lula.

 

"Consideramos 2006 uma questão superada. Mercadante é uma pessoa de projeto e de partido", defende o prefeito do Osasco, Emídio de Souza, que abriu mão da pré-candidatura em favor do senador. Mercadante convidou Emídio para a coordenação geral da campanha, o que para muitos foi a prova de que está mais maleável e agregador. "Mercadante tem um perfil de construtor partidário. As pesquisas indicavam que era a melhor imagem do PT hoje", diz Edinho Silva, presidente do PT paulista.

 

Ternurinha

 

Há algumas semanas, numa roda de conversa nos corredores do Congresso, um petista soltou o novo apelido do petista: "É o Aloizio Ternurinha". Tido como uma espécie de Ciro Gomes do PT, que muitas vezes não mede o impacto do que diz, Mercadante construiu ao lon go dos anos um rol de desafetos no partido. Mas hoje é consenso entre os petista de que ele é o mais qualificado para a disputa. "A vida, a maturidade, a idade, a experiência de Brasília e as derrotas ajudam. Ele está mais meigo", resume o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP).

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