Gabriela Biló / Estadão
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Em busca de novas ruínas

Bolsonaro sempre surpreende, com a maldade intrínseca impregnada nas ações

Rosângela Bittar, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2020 | 03h00

Impressiona a capacidade com que Jair Bolsonaro consegue marcar, pelo obscurantismo, qualquer assunto em que intervenha.

Sejam os embates internacionais contra a devastação da Amazônia, seja a falta de compaixão pelas vítimas da pandemia, ou mesmo o descaso agressivo com o futuro de milhões de estudantes de todas as idades.

Sempre surpreende, com a maldade intrínseca impregnada nas ações. Meteu-se numa hipotética luta ideológica e tudo o que faz, nesta área, desanda antes de andar.

O Ministério da Justiça, transformado em central salva-vidas para socorrer membros do governo que caem nas garras da lei, está truncando seu papel. Sacrificou a posição de equilíbrio e bom senso para voltar-se à administração da rede paralela de Inteligência que o presidente reclamava.

A última arapongagem (quem diria que tal termo iria voltar à moda 30 anos depois) foi fichar antifascistas. O pretexto, para investigar quem está contra o governo, pressupõe, no mínimo, que o presidente vestiu a carapuça. Sem juízo de valor, é o que dizem as palavras.

A construção desta rede, a maior criação de Bolsonaro até o momento, ainda em processo, vem acompanhada de um conjunto de atos suspeitos: revogação de portarias de controle do mercado de armas; estudos para controle direto das PMs; ampliação da Abin entregue ao comando de alguém da sua confiança familiar; introdução de fortes tentáculos pessoais na Polícia Federal; aprofundamento de um sentimento ambíguo com relação ao Supremo Tribunal Federal: ora quer destruir, ora dominar.

Tal descalabro tem interface com a desastrada condução no Ministério da Saúde, que Bolsonaro conseguiu reduzir a escombros.

Conforme o estilo, tenta vincular o fracasso no combate à pandemia aos que imagina seus concorrentes. Acuados pelo necessário isolamento, governadores e prefeitos não conseguem reagir, nem mesmo para apontar as evidências. Que estão à mão, numa conta simples: se 20 mil mortes estão na conta de um deles, 100 mil estão na conta de Bolsonaro.

Desautorizou seus ministros, tirando-lhes a chance de uma ação organizada e eficaz. Menosprezou e acrescentou mais letalidade à pandemia. Como? Tornando-se garoto propaganda de um remédio que, em lugar da cura comprovada, complica os tratamentos e aprofunda os riscos. É estranho que o Ministério Público ainda não tenha investigado as relações de Bolsonaro com a cloroquina.

Já a Educação, ministério onde a ignorância bolsonarista acampou e domina, enfrentará o teste de um terceiro titular. Que, desconhecido, precisa não só demonstrar competência como fazer esquecer as asneiras dos antecessores. O MEC está destruído, ali o recomeço é no ponto zero.

E, para completar, com a chegada da temporada eleitoral, abre-se o espaço à corrida pelos palanques dos grotões. Antes dominados pelos coronéis da política, foram fidelizados por Lula e, agora, já batem continência para Bolsonaro.

É a nova vertente da mutação do atraso. Tendo suas bandeiras populistas desfraldadas pela bolsa emergencial de R$ 600, Bolsonaro percebe que falta dinheiro para mantê-las no mastro até as urnas. E dá mais um grande passo atrás: aprova o novo imposto, que é o velho imposto, condenado e extinto. Entrega-se à arrecadação fácil e preguiçosa da CPMF.

Conduzindo-se em campanha em tempo integral segue o presidente. Do alto da sela, na mesma perspectiva com que antes animava seus incendiários, fanáticos apoiadores agora reclusos por temor à Justiça, alguns até abrigados no exterior. Cederam lugar à ingênua plateia dos palanques do interior. É o que se verá daqui para o fim do ano.

O governo fica onde está, abandonado, como os brasileiros. E Bolsonaro sai em busca da construção de novas ruínas.

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