Em BH, Lula compara Aécio Neves a Collor e Lacerda

Ex-presidente comparou o candidato do PSDB à Presidência ao senador alagoano e ao opositor de Getúlio Vargas

Marcelo Portela,Suzana Inhesta, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 13h20

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva partiu para cima do adversário da presidente Dilma Rousseff na corrida presidencial, senador Aécio Neves (PSDB), a quem comparou com Carlos Lacerda, opositor de Getúlio Vargas, e ao ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTB-AL).

Embalado pela vitória em primeiro turno de Fernando Pimentel (PT) para o governo de Minas, principal reduto eleitoral de Aécio, Lula discursou neste sábado, 18, em Belo Horizonte com ferrenhas críticas ao tucano, a quem classificou como "filhinho de papai" e disse que a imprensa - incluindo a revista The Economist -, o sistema financeiro e "parte da elite" do País são aliados do senador.

Segundo Lula, Aécio "sabe fazer denúncia de corrupção dos outros e esconder seu rabo para ninguém saber o que está acontecendo". Ao comentar o que considera "desrespeito" do tucano contra Dilma, o ex-presidente desafiou o adversário a manter a mesma postura diante de um homem e acusou o senador de agredir mulheres.

"Nunca vi um cidadão faltar com o respeito com a presidente como nosso opositor. Pega uma palavra minha chamando o adversário de mentiroso. Não é o comportamento de um candidato. É o comportamento daqueles filhinhos de papai que acham que os outros têm que fazer tudo para eles. Não sei se (Aécio) teria coragem de ser tão grosseiro se o adversário dele fosse um homem", disparou. "Meu negócio com mulher é partir para cima agredindo porque aí a coisa pega mais", acrescentou o petista, ironizando como se a fala fosse do próprio senador.

E usou novamente a ironia para comentar o caso em que Aécio caiu numa blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro, onde se recusou a soprar o bafômetro, questão abordada por Dilma durante debate com o tucano. "Quando a Dilma perguntou do bafômetro, ele disse que não tinha carteira. O bafômetro não é para medir se tem carteira ou não. Bafômetro não cheira carteira de motorista. Cheira álcool", afirmou.

O petista também fez referência ao fato de Aécio, aos 19 anos, ter trabalhador como assessor parlamentar do pai, o ex-deputado federal Aécio Cunha, apesar de morar na capital fluminense, o que Lula considerou "o melhor emprego do mundo". "Quem sabe qual foi o primeiro emprego do Aécio? O primeiro emprego foi assessor do pai que era deputado eleito por Belo Horizonte. E ele foi assessorar o pai em Minas, em Brasília? Não, no Rio de Janeiro", ressaltou.

Em seu discurso de mais de meia hora para a multidão que lotou a praça Duque de Caxias, no bairro Santa Tereza, região boêmia de Belo Horizonte, Lula fez uma lista de diversas categorias de trabalhadores e desafiou a plateia a mostrar "uma foto" do tucano reunido com algum deles no período em que foi governador do Estado. "O moço é vingativo. Não conheço nenhum momento da história, nem no regime militar, em que os professores fossem tão perseguidos como foram em Minas Gerais, salientou.

Imprensa. Segundo o ex-presidente, a candidatura do tucano é impulsionada pela imprensa comandada pela "elite", assim como ocorreu na eleição de Collor. "Este País muitas vezes comete equívoco. Em 1989, com medo de mim, do Ulisses Guimarães, do Brizola, do Mário Covas, muitas vezes instigado pela imprensa, escolheu o Collor presidente da República dizendo que era o novo. E vocês sabem o que aconteceu. Agora a gente está vendo o mesmo comportamento. A imprensa brasileira, possivelmente na mão da elite, não admite nenhum governante que olhe para as pessoas mais pobres", declarou.

O ex-presidente também se referiu à The Economist, que publicou matéria defendendo a candidatura de Aécio. "Se não bastasse a imprensa brasileira, vi a revista The Economist, pedindo voto para o adversário dela (Dilma). É a revista mais importante do sistema financeiro internacional, dos bancos, dos achacadores. Essa revista que defende os bancos não quer a Dilma, quer o Aécio. Qual a resposta que temos que dar? Se o Aécio é o candidato dos banqueiros, ótimo. Porque a Dilma é a candidata do povo brasileiro", declarou.

E comparou a postura de Aécio à de Carlos Lacerda, principal opositor do ex-presidente Getúlio Vargas. "Se esquece que o avô (Tancredo Neves) trabalhou no governo de Vargas e foi primeiro-ministro de João Goulart", observou, referindo-se ao presidente deposto pelo golpe militar de 1964.

Lula participou do ato ao lado de Pimentel, diversos deputados estaduais e federais eleitos e da atual legislatura, além de lideranças do PT e outros partidos da coligação pela reeleição de Dilma, além de entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O evento foi o segundo com a participação do ex-presidente em atos de campanha em Minas. No início de agosto, ele esteve com a presidente em Montes Claros para o lançamento oficial da candidatura ao Senado de Josué Alencar (PMDB), filho do vice-presidente de Lula, José Alencar.

Na segunda-feira (20) será a vez de Aécio desembarcar no Estado. Está prevista uma visita do senador ao Santuário Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, na região metropolitana de Belo Horizonte. A visita, carregada de simbolismo, repete ato do avô do tucano, Tancredo Neves, adotado por Aécio de pedir uma bênção no início das campanhas e voltar ao local para agradecer no fim das disputas. E há previsão de nova visita de Dilma ao Estado durante a semana.

A petista e Aécio travam acirrada batalha pelos votos dos mineiros. Apesar de o Estado ser a principal base eleitoral do tucano, a presidente teve 41,59% dos votos válidos em Minas no primeiro turno, contra 33,55% de Aécio. As críticas à gestão do tucano no governo mineiro foram um dos principais motes da campanha do PT no segundo turno. Em seu discurso, Pimentel afirmou que ligou para Dilma antes do comício e, segundo o governador eleito, a presidente pediu a ele que disse aos militantes que "confia" em Minas "porque é de lá que vai sair nossa vitória".

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