Em BH, Dirceu afirma que foi condenado como 'instrumento de vingança' da direita

Ex-ministro classificou julgamento do mensalão como 'nulo, político e de exceção'

Marcelo Portela, de O Estado de S. Paulo,

31 de janeiro de 2013 | 23h23

BELO HORIZONTE - O ex-ministro José Dirceu afirmou nesta quinta-feira, 31, que a cassação de seu mandato como deputado e sua condenação a mais de dez anos de prisão no julgamento do mensalão realizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) foram "instrumentos de vingança" de partidos e grupos de direita contrários ao governo petista. Dirceu participou de evento da legenda em Belo Horizonte que, com o título "Em Defesa do PT e dos Direitos Democráticos", se transformou em tribuna para críticas ferrenhas ao Judiciário e à mídia brasileiros.

Apesar do tom moderado em seu discurso de quase 45 minutos, o ex-ministro não poupou ataques ao STF e declarou que o processo do mensalão - que classificou como "nulo, político e de exceção" - inaugura um "novo ciclo" no embate político no País. "O julgamento da ação penal 470 é um divisor de águas porque marca também uma mudança da estratégia, da forma de luta da oposição, numa forma geral da palavra, não só dos partidos políticos", declarou.

Segundo o ex-ministro, sua condenação é resultado de uma "disputa ideológica" na qual os "aparelhos que reproduzem valores, que criam e desenvolvem ideias e projetos são cada vez mais controlados pela direita". "Estão criando literatura, cinema, teatro, centros de pensamento, revistas. E estão construindo, através dos meios de comunicação, uma bolha, um mundo real, fictício, dirigido à nova classe trabalhadora, à nova classe média", disparou.

Ele ressaltou que esse público é justamente a parcela da população em ascensão após o PT assumir a Presidência, mas que parte dela "acaba acreditando" em versões que, de acordo com o Dirceu, são criadas e difundidas pela mídia. "O que está em jogo é a disputa pela alma brasileira. Pelo coração e mentes, retirando o foco do momento histórico", salientou o ex-ministro. "Essa é a disputa mais difícil, porque envolve os meios de comunicação, a mídia, a educação. A educação vai se fazer através da internet. E é preciso conteúdo. Quem está produzindo conteúdo? Os grande grupos privados de direita", acrescentou.

Difamação. Sempre com tom de voz ameno, o ex-ministro também disparou petardos contra o Judiciário e acusou o STF de aderir a uma "campanha de difamação a respeito da nossa honestidade". "Sabem que somos honestos e que essa é uma questão de caixa dois eleitoral. Temos que prestar contas, mas não tem nada de maior esquema de corrupção do País", disse, referindo-se ao mensalão.

Dirceu afirmou ainda à plateia que lotou o auditório do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG) que sua defesa contra a condenação "não deve ser o centro de nossa luta", mas garantiu que não vai "se calar" e que vai lutar para provar inocência porque "o debate iminentemente é político, mas também é jurídico". "Estamos em momento de enfrentamento, de confronto. E o que precisamos é isto: bateu, levou", orientou.

Além de Dirceu, outros representantes do PT também aproveitaram o evento de ontem para atacar o STF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) por causa do processo do mensalão. O líder do partido na Assembleia Legislativa de Minas, deputado estadual Rogério Correia, por exemplo, cobrou da PGR uma posição sobre denúncias encaminhadas em 2011 ao órgão contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG) que estão paradas com o procurador-geral, Roberto Gurgel. Também cobrou do STF o julgamento do chamado mensalão mineiro, esquema de desvio de verbas públicas em 1998 para financiamento da campanha à reeleição do então governador de Minas, o tucano Eduardo Azeredo, que tramita no Supremo e na Justiça mineira.

Já o secretário-geral do diretório estadual do PT, deputado Durval Ângelo, classificou como "grande erro" do Judiciário brasileiro as condenações no processo do mensalão diante da "ausência de provas". "O mesmo Judiciário que entregou Olga Benário para os nazistas, legitimou a escravidão no século XIX, comete outro erro agora", afirmou. Olga Benário era a mulher de Luís Carlos Prestes, um dos principais líderes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), morta na câmara de gás pelo regime comandado por Adolf Hitler. O ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto (sem partido), absolvido pelo STF no processo do mensalão, também participou do evento, mas não quis se pronunciar.

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