Em Aparecida, cardeal critica política de 'interesse pessoal'

Ex-presidente da CNBB, d. Damasceno prega zelo pelo bem comum e diálogo em vez de ‘acirramento de ânimo’

Gerson Monteiro, especial para O Estado, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2016 | 08h00

Aparecida - Um dos mais importantes nomes da Igreja Católica no Brasil, o cardeal d. Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida, criticou ontem a “crise ética e moral” que permeia a política nacional e pregou a retomada do “verdadeiro valor intrínseco” da palavra. “É a preocupação ao serviço do bem comum de todos, e não a política de interesses pessoais”.

O cardeal conversou com o Estado em uma sala reservada da sacristia, após deixar o altar principal do Santuário Nacional de Aparecida, onde celebrou missa solene de Páscoa para aproximadamente 50 mil fiéis, na manhã de ontem.

D. Damasceno acredita que o sistema político do País precisa de renovação e que o diálogo seria a melhor saída para o governo e o Congresso Nacional enfrentarem a situação. “Um país não pode viver permanentemente em crise.”

Serenidade. Para d. Damasceno, o momento de tensão exige um caminho de paz, “jamais um caminho de acirramento dos ânimos”. Ao citar a “crise ética e moral” que seria a raiz dos atuais problemas, o cardeal defendeu uma mudança de postura por parte da classe política.

“A política precisa ser reabilitada em nosso País, é preciso que ela retome seu verdadeiro valor intrínseco, o verdadeiro valor da palavra política. É a preocupação a serviço do bem comum de todos e não a política de interesses pessoais”, afirmou.

Quando ocupou a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de 2011 a 2015, o cardeal reuniu-se diversas vezes com a Presidência da República e defendeu a reforma política. Em seus últimos encontros, Dilma chegou a pedir que a igreja não apoiasse seu impeachment.

Ao manter o tom crítico que já havia adotado na campanha pela reforma encabeçada pela CNBB, d. Damasceno disse que a igreja está à disposição da sociedade, mas não busca tomar o papel reservado aos representantes dos eleitores. “A igreja não quer assumir o protagonismo político. Isso não é papel da igreja, é para os políticos”, disse o cardeal. 

Após quase um ano de seu encontro com Dilma, em que o cardeal pediu à presidente que “não deixasse de ouvir o clamor das ruas”, a atual situação, segundo o arcebispo, é bem diferente da observada naquele momento. “Estamos vendo que os problemas se acumularam.”

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