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Em ano sabático, Yeda Crusius estuda os linchamentos

Em entrevista ao Estado, ex-governadora do RS diz que ainda é um ser político, mas mantém distância das atividades partidárias

Elder Ogliari, correspondente em Porto Alegre

17 de outubro de 2011 | 21h12

PORTO ALEGRE – Desde que deixou o governo do Rio Grande do Sul, em 1º de janeiro, Yeda Crusius (PSDB), 67 anos, trocou os holofotes do mundo político pelas atividades privadas de um ano sabático. Nesse período alugou a casa adquirida em 2006, fonte de muitas acusações durante sua gestão (2007 a 2010), e foi morar, como inquilina, acompanhada da lhasa apso Mel e de duas calopsitas, em um apartamento do centro de Porto Alegre, onde se dedicou a organizar o acervo de livros, discos e obras de arte, à culinária e às reuniões com amigos. Também aproveitou para viajar a cada dois meses. E passou a se dedicar ao estudo da violência e dos linchamentos morais, inspirada na obra do filósofo francês René Girard, autor da tese do bode expiatório.

 

A tucana ainda não definiu o que fará dessa busca pelo entendimento do como a sociedade canaliza a violência contra um indivíduo, mas promete que em breve divulgará a plataforma que vai escolher. Embora diga que o “ser político Yeda está a mil”, ainda mantém distância das atividades partidárias, descarta concorrer à prefeitura de Porto Alegre em 2012 e promete atuar mais nas atividades nacionais do PSDB, como integrante do Instituto Teotônio Vilela, do que nas regionais.

 

O calmo período sabático de Yeda contrasta com seu agitado governo, marcado pela conquista do equilíbrio fiscal, destacada pelos aliados, ou por uma série de brigas, acusações de corrupção e processos judiciais que vão da ruptura pública com o vice-governador Paulo Feijó (DEM), ainda em 2006, à denúncia contra funcionários de seu gabinete e da Casa Militar que teriam usado a estrutura da área de segurança para espionar políticos e jornalistas, feitas por um promotor de Justiça, em 2010.

 

Em meio a isso, a Operação Rodin da Polícia Federal acusou dirigentes de autarquias estaduais de participação na fraude que desviou R$ 44 milhões do Detran (em 2007) e duas CPIs (do Detran em 2008 e da Corrupção em 2009) desgastaram o governo mostrando gravações comprometedoras de aliados. Ao mesmo tempo surgiram acusações, feitas por adversários, de que a tucana teria usado recursos da campanha para pagar parte do valor de uma casa adquirida em dezembro de 2006. Em 2009, Yeda teve seu nome incluído em ação de improbidade administrativa movida por seis procuradores da República contra nove acusados de suposto envolvimento com a fraude do Detran, como beneficiários, operadores ou intermediários do esquema.

 

A tucana sempre alegou inocência e sustenta que diversas decisões comprovam isso. Uma delas é a do Ministério Público Estadual, que arquivou investigação sobre a compra da casa em 2008 por entender que não houve irregularidade no negócio. Outra é a recusa, pela Justiça Federal, do pedido de afastamento do cargo feito pelo Ministério Público Federal, em 2009. E a terceira é a rejeição, pela Assembleia Legislativa, onde tinha maioria, da admissibilidade da abertura de um processo de impeachment proposto por sindicatos de funcionários públicos. Yeda também considera que seu nome está fora da ação movida pelo Ministério Público Federal porque o pedido de retirada formulado por seu advogado foi atendido em todas as etapas pelas quais já passou. Mas o caso não transitou em julgado. No momento, há um recurso em análise no Superior Tribunal de Justiça.

 

Nesta entrevista ao Estado, Yeda fala de seus estudos atuais, volta a acusar adversários de terem se unido em conluio contra sua administração, prevê participar das decisões nacionais do PSDB e reclama da exclusão de sua corrente da direção estadual. Na eleição interna de abril deste ano, o grupo da ex-governadora não conseguiu os 20% necessários para integrar o diretório e a executiva. O presidente estadual da sigla, Nelson Marchezan Júnior, explica que o índice necessário à participação na direção é previsão estatutária. Os procuradores da República e o governador atual, Tarso Genro (PT), não comentaram as acusações da tucana.

 

Estado – Quais têm sido suas reflexões nesse período de vida privada?

Yeda Crusius – Estou buscando entender o ciclo de mudanças que o mundo vive, inclusive entender o que aconteceu conosco, a tentativa de linchamento que a gente sofreu. Quero estudar como nasce a violência nas civilizações, no ser humano. Diariamente estão acontecendo linchamentos de reputação no Brasil e no mundo. Pessoas altamente acreditadas, que passaram a vida inteira recebendo prêmios, da noite para o dia são linchadas por exércitos da salvação.

 

Estado – A senhora tenta ligar os estudos da violência à tentativa de linchamento moral que diz ter sofrido?

Yeda – Essa é a violência de René Girard. Ele diz que chega um momento em que aparece um boi corneta, um cara mau, que transforma uma pessoa conceituada, um líder, numa pessoa perseguida, e ela acaba sendo sacrificada. E isso eu quero realmente continuar a ver, não só por ter acontecido comigo. Porque houve uma tentativa de linchamento e eu sempre disse ‘não fiz o que estão dizendo que eu fiz’. Eu não sou Édipo, que assumiu culpa que não era dele, eu sou Jó, que diz “eu não fiz isso, por que querem me linchar?”. Eu nunca deixei entrar na minha casa o que eles queriam que entrasse.

 

Estado – A senhora vai montar um centro de estudos, escrever livros?

Yeda - A bagagem exige que eu estude para propor alguma coisa que possa dar continuidade à evolução desse entendimento da violência e do combate à violência. Eu tenho uma plataforma a definir e quando fizer isso vou dar a público.

 

Estado - O que fez a senhora sair de uma casa que lhe rendeu tanta polêmica para morar num apartamento?

Yeda - A polêmica começou com a casa. Eu não iria morar no (palácio) Piratini e queria uma casa à altura do Rio Grande do Sul que eu tenho na minha cabeça. Aquilo foi usado como símbolo para tentar me igualar a políticos corruptos. Mas de corrupção eles entendem, eu não. Fui muito feliz naquela casa, mas estou noutra. Agora quero fazer como todo mundo faz, bater a porta e ir para o aeroporto. Com uma casa você tem que ter uma estrutura gigantesca, que não fazia mais sentido para mim.

 

Estado - Recentemente a Justiça Federal retirou os nomes de sua ex-assessora Walna Menezes, do seu ex-marido Carlos Crusius e do seu ex-tesoureiro de campanha Rubens Bordini da ação de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público Federal contra nove supostos envolvidos com desvios de recursos do Detran. Isso lhe dá a expectativa de ver seu nome retirado também?

Yeda - Meu nome não está em nenhum processo.

 

Estado – Ele foi excluído, mas o afastamento ainda não transitou em julgado porque há recurso do Ministério Público Federal aguardando análise do Superior Tribunal de Justiça.

Yeda - Tudo bem, mas o objetivo daquela coletiva (dos procuradores da República, em 5 de agosto de 2009) era tirar a governadora do cargo e foi frustrado. A juíza (federal) de Santa Maria disse ‘não há porque’. Eu tinha que reagir dentro das regras processualísticas normais. Então se criou muito litígio na forma de processo. Desejo fortemente que isso termine porque acho que há uma consciência geral de que houve um conluio com finalidade de eleição.

 

Estado - A senhora fala em conluio contra o seu governo. Pode apontar quem participava disso, quem era o líder?

Yeda – O líder não. Mas foram instituições federais. Então houve sim um interesse partindo do governo federal. Eu não tenho dúvidas de que as instituições federais atuaram dentro do governo do Estado com propósitos ou enganos, enfim. Houve um método de atuação, que em relação ao Rio Grande do Sul prejudicou muito. Era o interesse de deputados se elegerem, de senadores se elegerem. Então não era apenas a visão para ganhar o governo do Estado. Era de todos os políticos da minha oposição, que queriam se eleger às custas da calúnia, da difamação, do usar Brasília para impedir de fazer aqui no Rio Grande do Sul.

 

Estado – Quando a senhora fala em instituições federais se refere também ao Ministério Público?

Yeda - A Polícia Federal, o Ministério Público Federal. Não estou dizendo a instituição. Mas esses seis procuradores federais, junto com a Polícia Federal, junto com outras coisas, perturbaram a paz da realização do governo cotidianamente.

 

Estado – A senhora eventualmente diz que no Rio Grande do Sul há uma cultura de não deixar fazer. Seu governo encontrou isso?

Yeda – Claro! Por que não me deixaram duplicar as estradas? Para depois cair tão feio quanto caiu o ministro (Alfredo Nascimento, dos Transportes)? Foi ele que não deixou, acionado por deputados gaúcho do PT. E por que não deixar fazer? Por que querem ganhar uma eleição? É. Ganhar uma eleição para fazer o quê? Eu não estou interessada em saber. Eu tenho minhas ideias e opiniões, mas é hora deles governarem.

 

Estado - A que a senhora atribui a sua derrota eleitoral no ano passado?

Yeda - Teve sucesso quem praticou cotidianamente a conspiração. Teve um conjunto de forças que queria o governo do Estado. Para fazer isso tinha que destruir a reputação de uma governadora que chegou pelo modo democrático, pela maioria, e estava implementando um plano de governo que era praticamente consensual. A surpresa foi o meu índice de votação (18,4%), foi muito elevado.

 

Estado – A senhora concorda que seu governo foi conturbado?

Yeda - Ele não teve paz! Toda vez que eu tinha uma grande notícia a dar, se programava uma coletiva, requentando uma denúncia sobre culpa inexistente de minha parte. O governo foi muito atacado, na praça da Matriz, na imprensa, mas ele andou todos os dias. Mas não houve transmissão dessa guerra política para dentro das políticas públicas de saúde, de educação e segurança, pelo contrário. Foram políticas públicas premiadas.

 

Estado - Seu governo errou em algumas coisas?

Yeda – Eu não cometi um erro que foi não cumprir os compromissos do plano de governo. Quais são os erros que eu assumo? Eu acho que devia ter brigado mais para o PFL tirar o candidato a vice que colocou. O segundo erro foi ter imaginado que se entenderia eu gastar todo o dinheiro e patrimônio que eu tinha em uma casa porque eu não podia continuar vivendo em um apartamento de uma porta só e não ia viver no Piratini.

 

Estado - Se fala muito que o seu governo foi bem na gestão, mas teve problemas na condução política. A senhora tinha paciência para lidar com os aliados?

Yeda - Quem sabe quem não tivesse paciência fossem os aliados. Durante todos os anos que eu fui deputada federal eu fui uma das cem cabeças do Congresso Nacional, inclusive pela articulação política. Então como é que é? Era um lá e outra aqui? Não. Eu sempre gostei muito da articulação política.

 

Estado - Quais foram os principais acertos do seu governo?

Yeda - É como uma equação de economista.  Receita igual despesa. Em termos de política financeira e fiscal para financiar os investimentos em todas as áreas, este foi um acerto reconhecido. Não teve uma área de política pública que não tivesse passado pelo crivo do financiamento com eficiência e transparência. E o crescimento, com o equilíbrio fiscal, teve ritmo chinês. Os investimentos estrangeiros confiaram em nós e vieram para cá. Investimentos gaúchos confiaram e ampliaram as suas plantas. Investimentos nacionais puseram o Rio Grande do Sul no radar. Isso é emprego. Tanto é que taxa de desemprego do RS é a mais baixa do Brasil. Isso não se faz sem um governo que acerte. Eu creio que não houve nenhum setor em que gente não tivesse melhorado os indicadores. Aliás, esse é o método de gestão no qual eu me baseei para governar.

 

Estado – Aparentemente a senhora foi abandonada pelo PSDB nacional durante a campanha. Ficou decepcionada com isso?

Yeda – Não, porque eu não esperava nada além do que aconteceu. A tentativa de vitória para a presidência da República gera muito mal-estar nos regionais. Porque as buscas que a candidatura à presidência da República faz por aliados às vezes são incompatíveis com a realidade regional. Mas eu tive um apoio muito forte do Aécio, do Alckmin, de deputados e senadores do Brasil inteiro.

Estado - A senhora tem alguma mágoa do candidato José Serra?

Yeda – Não. O Serra é muito próximo do PMDB e buscou somar os meus votos com os votos do PMDB. Foi muito pragmático.

Estado – Além de perder a eleição, a senhora viu seu grupo ser alijado do diretório e da executiva estadual do PSDB em abril deste ano por não ter conquistado o mínimo de 20% dos votos nas eleições internas.

Yeda – Essa decisão de não dar a proporção é inusitada. Se teve 40 a 60 ou 35 a 65, as posições costumam ser na boa política compartilhadas na mesma proporção. O PSDB conseguiu ser governo do Estado e enquanto governo irrigou o Rio Grande do Sul de políticas públicas que elegeram cinco deputados estaduais. Aí me surpreende porque é uma política de pessoas pouco experientes. Pessoas experientes agregam, não desagregam.

Estado - A senhora vai reocupar seus espaços, participar das decisões do partido no Estado e no País?

Yeda  - O partido nacional é o meu local. Eu fui fundadora e presidente do PSDB Mulher nacional. Eu fui presidente e sou do ITV (Instituto Teotônio Vilela) nacional. É o meu espaço, o espaço da macropolítica. Como isso vai bater aqui no Rio Grande do Sul? Depende daqui. Eu não vou fazer o que eu já fiz no passado, que é lutar bravamente contra todas as correntes para fazer o PSDB crescer. Se não querem crescer localmente ou têm uma estratégia local diferente, eles arquem então com os resultados que vão colher mais tarde. Os resultados da agregação que eu pratiquei nacional e regionalmente levaram o PSDB do Rio Grande do Sul ao governo do Estado.

Estado - E para o futuro, o que a senhora planeja na política?

Yeda – Só o tempo dirá. Eu estou tendo descobertas diárias do o que é esse ciclo em transformação no mundo. Não estou fazendo plano nenhum.

Estado - Como a senhora avalia o governo do Tarso?

Yeda - Eu não avalio. Só posso garantir uma coisa. O governo Tarso pegou a casa em ordem. Inclusive o Piratini restaurado.

 

Estado – O governo atual não fala em déficit zero como o seu falava. A busca do equilíbrio fiscal estaria em risco?

Yeda - O equilíbrio fiscal, que gera investimento, emprego, crescimento e renda, não está na pauta deste governo. Dá um trabalhão fazer o déficit zero. Em compensação ele te permite dar subsídio para as carreiras jurídicas, fazer estradas, pagar hospitais conforme o contrato de gestão, pagar atrasados.

Estado – O governo atual está tomando empréstimos de R$ 2 bilhões para investimentos e modernização do Estado. Isso recria o círculo do endividamento?

Yeda - Ele pode pegar o empréstimo. Hoje o Rio Grande do Sul tem indicadores de responsabilidade fiscal que eu deixei e que permitem empréstimos de financiadores internacionais.

 

Estado – Que avaliação a senhora faz do governo Dilma?

Yeda – Em primeiro lugar agradeço porque o programa de ajuste fiscal, de fazer mais com menos, foi o programa do governo Yeda desde o primeiro dia.  Eu agradeço a homenagem, embora seja uma homenagem não explícita. Mas eu me preocupo porque não está na natureza do governo manter a estabilidade com eficiência. Então eu acho que este governo federal vai passar as suas dificuldades e vamos ver se consegue remar sem muitas distorções de aparelhamento. Demora muito depois consertar os males do aparelhamento. O uso do dinheiro público para fins político partidários.

Estado – Apesar do período sabático, o que a senhora diria a seus eleitores neste momento?

Yeda - O ser político Yeda está a mil, vivendo de uma maneira muito mais leve e muito mais livre. Continua o ser político Yeda contra todo o modo de fazer política deste período em que nos somos oposição. Eu sou muito claramente uma tucana propositiva e eminentemente contrária à falta de transparência e ao aparelhamento da máquina do Estado.

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