Daria Obymaha/Pexels
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Em ano de eleições, 62% das cidades brasileiras não terão cobertura de jornalismo local

Pesquisa Atlas da Notícia aponta que maior parte dos municípios não tem veículos jornalísticos para informar a população

Alessandra Monnerat, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 14h25

A maior parte dos municípios brasileiros, 62,6% do total, são “desertos de notícias” - nestes lugares, não existe nenhum veículo de imprensa para informar a população sobre o que ocorre na cidade. Nessa situação, vivem 37,4 milhões de pessoas, de acordo com o Atlas da Notícia, levantamento publicado nesta quarta-feira, 11. A pesquisa indica um cenário preocupante para as eleições de 2020, amplificado pela disseminação de notícias falsas.

O Nordeste (73,5% dos municípios) e o Norte (71,8%) são as regiões com maior proporção de desertos. Em alguns Estados dessas regiões, essa porcentagem é ainda maior: Tocantins (89,2%), Rio Grande do Norte (85,6%), Piauí (83%) e Paraíba (81,6%).

Há ainda os “quase desertos” de notícias, que representam 19,2% dos municípios do Brasil. São localidades que correm risco de virarem desertos, pois têm apenas um ou dois veículos jornalísticos. Ao menos 27,5 milhões de brasileiros vivem em cidades assim, segundo a pesquisa feita pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor).

Isso quer dizer que 64,8 milhões de pessoas, ou 31% da população nacional, podem ficar mal informadas sobre o poder público municipal durante as eleições do ano que vem. O coordenador da pesquisa, o jornalista Sérgio Lüdtke, comentou que, apesar de o cenário de “desertificação” não ser muito diferente dos anos anteriores, a consequência da falta de cobertura jornalística pode ser ampliada pelo fenômeno da desinformação.

“Nas eleições passadas, de 2016, não se colocava a atenção que se coloca agora sobre desinformação”, afirma Lüdtke. “Isso se ampliou muito depois do impeachment. Agora temos grupos que abastecem as redes com conteúdo malicioso e as pessoas continuam muito suscetíveis a esse tipo de informação.”

Lüdtke ressalta que, sem veículos jornalísticos, a informação local continua sendo compartilhada por outros meios, sem mediação. O jornalista também é editor-chefe do projeto Comprova, coalizão para checar boatos sobre políticas públicas formada por 24 veículos, incluindo o Estado. “A desinformação é um mal da sociedade que precisa ser tratado. Poderíamos pensar em programas de fomento para cobrir essas populações que moram em desertos”, diz ele.

O Atlas também mapeou o fechamento de veículos brasileiros. Foram 331 desde 2003, a maioria de impressos (195, ou 60%). “Há uma transição lenta do impresso para o digital. Alguns veículos importantes encerraram suas edições impressas recentemente”, observa Lüdtke.

A pesquisa contabilizou mais de 13,7 mil empresas jornalísticas no País. Maior parte deles era rádios (35,2%), seguidos de impressos (29,4%), veículos online (25,5%) e televisões (9,7%).

Para levantar esses números, o projeto contou com o apoio de 193 colaboradores de todas as regiões brasileiras, além de 22 escolas de jornalismo, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). O financiamento é do Facebook Journalism Project.

A análise dos dados ficou a cargo do Volt Data Lab, liderado pelo jornalista Sérgio Spagnuolo. O mapeamento também inclui a publicação de uma API (interface de programação de aplicativos). “Esta ferramenta permitirá a implementação de aplicações, automatização de análises e gráficos e facilitação do uso dos dados do Atlas por pesquisadores", disse Spagnuolo. 

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