Em 73 dias, uma denúncia depois da outra

Presidente do Senado se complica na defesa e vê seu cacife político se dissipar

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2007 | 00h00

Pouquíssimas vezes, em seus 181 anos de existência, o Senado brasileiro viu um presidente da Casa, acuado por todos os lados, batalhar tão duramente por sua sobrevivência política como vem fazendo, há 73 dias, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Desde que a revista Veja o acusou, a 25 de maio, de recorrer ao lobista de uma construtora para pagar dívidas pessoais, ele trava, contra adversários políticos, uma intensa briga de gato e rato que, aos poucos, dissipou seu outrora invejável cacife político.   Veja especial sobre o caso Renan CalheirosNo primeiro capítulo dessa luta, ele foi acusado de recorrer a Cláudio Gontijo, um lobista da empreiteira Mendes Jr., para pagar durante longo tempo um valor de R$ 12 mil mensais à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha fora do casamento.Renan garantiu que as despesas foram pagas com dinheiro ganho legalmente. Cobrado por ter mencionado apenas gastos após novembro de 2005, providenciou "novas provas" - mais dados do seu Imposto de Renda - sobre recursos anteriores, mas logo se soube que esses novos dados tinham sido apresentados à Receita, como correção, bem mais recentemente. No front político, o Conselho de Ética do Senado viveu dias conturbados, pressionado pelo senador a arquivar um processo que lhe movera o PSOL, por quebra de decoro. Em poucos dias, um relator - Epitácio Cafeteira (PTB-MA) - decidiu arquivar a denúncia sem lê-la nem ouvir testemunhas e se demitiu. Seu sucessor, Wellington Salgado (PMDB-MG), ficou um dia no cargo e foi embora. O presidente do conselho, Sibá Machado (PT-AC), que perdeu a confiança de Renan, também foi levado a renunciar. O novo presidente, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), decidiu devolver o processo à Mesa do Senado - achando que assim o caso voltaria à estaca zero - mas esta, mais que depressa, mandou a papelama de volta à comissão. E as denúncias não paravam de aparecer. Para mostrar que tinha renda, Renan apresentou notas de venda de gado em Alagoas, no valor de R$ 1,9 milhão, mas uma reportagem da TV Globo mostrou testemunhas que negaram ter negociado com ele. Em seguida, nova denúncia: ele teria vendido uma pequena fábrica de bebidas à Schincariol, por um valor muito maior, R$ 27 milhões, um suposto pagamento de seus serviços em favor da empresa junto à Receita e ao INSS. E, no último fim de semana, outro ataque: o senador teria usado laranjas para comprar, em Alagoas, uma empresa de comunicação, que controlava um jornal e duas emissoras de rádio.

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