Em 2010, ‘base’ do PMDB teve efeito nulo para petista

Dilma não ganhou benefícios eleitorais em locais onde votação nos candidatos do partido aliado foi alta, segundo análise estatística

Lucas de Abreu Maia, Daniel Bramatti, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2014 | 10h20

Análise estatística da última disputa presidencial põe em xeque a tese de que a “militância” do PMDB é importante em uma eleição para o Palácio do Planalto. A chamada máquina peemedebista teve efeito nulo para a vitória de Dilma Rousseff em 2010, conforme exame do Estadão Dados com dados eleitorais de 5.565 municípios.

Se o engajamento do partido tivesse contribuído para a eleição de Dilma, ela teria obtido mais votos nos locais em que há evidências de uma máquina peemedebista forte: onde os candidatos a deputado do partido são bem votados ou onde o partido comanda a prefeitura. Mas isso não aconteceu.

Para medir o eventual peso dos peemedebistas na eleição presidencial, o Estadão Dados fez uma regressão – técnica estatística que permite avaliar o impacto de diversas variáveis em relação a um determinado fenômeno.

O modelo estatístico não encontrou relação entre os votos do PMDB e os de Dilma. Isso sugere que, diferentemente do que alegam os líderes do partido, o grau de engajamento dos peemedebistas afeta pouco ou nada a disputa presidencial.

Palanques controversos. Em relação ao PT, porém, o efeito é claro. Os municípios onde os candidatos petistas a deputado federal foram bem votados em 2010 tendem a ser os mesmos em que Dilma teve desempenho acima da média no primeiro turno daquele ano.

Já o desempenho do oposicionista PSDB nos municípios, como seria de se esperar, teve efeito negativo para Dilma. Quanto mais bem votados foram os candidatos tucanos à Câmara, menos votos recebeu a presidente.

O Estadão Dados examinou, ainda, o efeito do PMDB apenas nos 13 Estados em que o partido lançou candidato próprio a governador em 2010. Ou seja, onde o partido ofereceu “palanques” estaduais a Dilma, segundo o jargão político.

Nos municípios desses 13 Estados, o desempenho dos candidatos do PT e do PSDB seguiu o padrão do resto do País. A votação dos candidatos do PMDB, no entanto, afetou negativamente a votação de Dilma. Ou seja: quanto melhor foi o desempenho dos peemedebistas em determinadas cidades, menos eleitores Dilma conquistou.

Aliados e rivais. O cientista político da USP José Álvaro Moisés vê esse fenômeno como consequência da competição local entre as duas legendas: “PT e PMDB são os maiores partidos do País. É na ponta, nos municípios, que essa briga para eleger mais vereadores, prefeitos e deputados se torna mais clara”.

De acordo com Moisés, “o PMDB não tem um perfil de militância comparável ao do PT”, o que torna improvável que a máquina do partido possa ajudar substancialmente um candidato à Presidência. “Nas eleições presidenciais, a contribuição real do PMDB está no seu tempo de TV”, afirmou.

Como elegeu a segunda maior bancada de deputados federais em 2010, o PMDB é detentor do segundo maior tempo de propaganda eleitoral, atrás apenas do PT. Seus 71 deputados dão direito a 2 minutos e 18 segundos em cada bloco de propaganda – quase 20% do tempo que Dilma deve ter na campanha deste ano. Se o partido ficar neutro, porém, a petista perderá apenas 7% de seu tempo de exposição.

Caciques municipais. O estudo do Estadão Dados indica ainda que o partido do prefeito eleito em 2008, seja ele de oposição ou aliado do Palácio do Planalto, não tem associação significativa com a votação presidencial petista naquele município.

Esse fato contrasta com o discurso de líderes peemedebistas, que costumam exaltar a “capilaridade” do partido como uma arma importante em eleições nacionais. Em 2008, o PMDB elegeu 1.201 prefeitos. Em 2012, foram 1.025.

Para reforçar seu modelo estatístico, o Estadão Dados incluiu na regressão fatores cujos efeitos nas eleições presidenciais já foram bem estudados, como renda per capita, tamanho da população do município, cobertura do programa Bolsa Família, grau de escolaridade da população e histórico de votação. Cada município recebeu pesos diferentes na análise, de acordo com o tamanho de seu eleitorado.

Conforme o esperado, Dilma foi melhor nas cidades em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também obteve boa votação em sua campanha à reeleição, em 2006. Ela também teve desempenho acima da média nos municípios menores, mais pobres, com maior cobertura do Bolsa Família e com população menos escolarizada.

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