Em 17 anos de proteção, França nunca concedeu refúgio a militantes italianos

Foram 17 anos de proteção do Estado francês, embasada apenas na palavra do presidente da República, o socialista François Mitterrand. Entre 1985 e 2002, mais de três centenas de militantes de grupos armados de extrema esquerda foram acolhidos em Paris no que se convencionou chamar Doutrina Mitterrand. Nunca nenhum deles, incluindo Cesare Battisti, recebeu o status de refugiado político, como concedeu ao italiano o ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro.Em 1º de fevereiro de 1985, em um discurso realizado na cidade de Rennes, Mitterrand lançou uma política que nunca virou lei, mas que reforçou a noção de "terra de asilo", um dos orgulhos do país: "Eu me recuso a considerar a priori como terroristas ativos e perigosos homens que vieram, particularmente da Itália, muito tempo antes do exercício de minhas responsabilidades (como presidente) e que se agregaram na periferia de Paris, arrependidos".Em reunião com Bettino Craxi, então primeiro-ministro da Itália, em 1985, Mitterrand reconheceu que desde 1976 havia três centenas de italianos na França, "arrependidos, e contra os quais a polícia não tem nada a dizer". O presidente disse que os demais 30 "perigosos" eram "clandestinos", "ativos e implacáveis", que estavam desaparecidos.Mas mesmo eles gozavam de benefícios: "Se os juízes italianos nos enviarem dossiês sérios provando que houve crime de sangue, e se a Justiça francesa der um parecer favorável, aceitaremos a extradição". Segundo confirmou ao Estado o Escritório Francês de Proteção dos Refugiados e Apátridas (OFPRA), nunca houve uma extradição de um ex-militante durante a Doutrina Mitterrand. A proteção aos militantes resistiu às pressões diplomáticas e ao tempo, continuando após o fim dos dois mandatos do socialista e mesmo de sua morte.Jacques Chirac, seu sucessor de direita, não a alterou, reforçando-a com a chegada do primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, entre 1997 e 2002. "Minha posição sobre Battisti? Meus atos falam por si mesmo", disse Jospin à revista Nouvel Observateur em julho de 2004. "As pessoas não lembram o suficiente que eu protegi os ex-militantes italianos contra extradições.""O que me surpreende na decisão brasileira é que jamais a França concedeu o status de refugiado a nenhum dos militantes que abrigou. Jamais Mitterrand pensou em fazê-lo", diz historiador e sociólogo francês Marc Lazar.

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