Elite sindical tem 45% dos altos cargos

Grupo com escolaridade acima da média teve 50% de reajuste no primeiro governo Lula, aponta estudo da FGV

Wilson Tosta, O Estadao de S.Paulo

05 de abril de 2008 | 00h00

Uma elite formada por 45% de sindicalizados com escolaridade acima da média brasileira - quase metade tem curso de mestrado, doutorado e pós-doutorado - ocupa os postos mais importantes da cúpula da administração federal. O perfil foi traçado na pesquisa Governo Lula: Contornos Sociais e Políticos da Elite do Poder, coordenada por Maria Celina D?Araújo, da Fundação Getúlio Vargas.Esse grupo teve reajuste salarial de até 50% no primeiro governo Lula. Em três quartos dos casos, não tem filiação partidária - ainda assim, é um índice alto em relação à população geral, menor que 3%. O estudo, a partir de 302 questionários com ocupantes de cargos DAS-5, DAS-6 e NES (de natureza especial), lembra que só 14,5% dos brasileiros são sindicalizados.Segundo o trabalho, com informações de 2006 do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, dos 226 ocupantes de cargos DAS-5 e DAS-6 e 36 de NES que responderam às perguntas, 10,6% eram de centrais sindicais; 35,1%, de conselhos profissionais; 46%, de algum movimento social. Só 5% eram de entidades patronais.Entre os pesquisados, 31,8% participavam de conselhos gestores; 23,8%, de experiências de gestão local; 10,6%, em entidades do terceiro setor. Em números absolutos, os ativistas de movimentos sociais eram maioria, com 139 pessoas. Em segundo, vinha o número de sindicalizados, 136. A participação em conselho veio em terceiro (106).Um em cada quatro pesquisados estudou no exterior, 48,8% tinham cursos de mestrado, doutorado ou pós-doutorado e 32,9%, de especialização. O perfil também apontou 19,8% de filiados ao PT, 1,32% ao PC do B, 0,33% do PDT, 0,66% do PSB, 0,33% do PV, 0,33% do PCB e até legendas de oposição: 0,99% do PPS e 0,99% do PSDB. Em contraste, só 2,6% dos brasileiros são filiados a partidos.O estudo mostra que a maior concentração de petistas, em termos absolutos, está nas áreas de Desenvolvimento (24) e Presidência (14). "Saúde e Justiça aparecem como as áreas com menor concentração de filiados e, sintomaticamente, a área econômica não tem nenhum", informa o texto.AMOSTRAPara fechar a amostra com que elaborou a pesquisa, a equipe da FGV partiu de uma listagem de 1.269 cargos, fornecida pela Secretaria de Gestão do Ministério do Planejamento. Desses postos, 1.202 estavam ocupados, em 69 órgãos. Foram identificados os nomes de 1.150 ocupantes, dos quais 1.013 foram contactados e receberam os questionários. Em fevereiro de 2007, a consulta foi encerrada, com 278 (27,4%) questionários respondidos, numa taxa de retorno considerada alta.Outras 24 pessoas tiveram questionários completados a partir de informações em currículos oficiais e constantes na imprensa. O universo de cargos pesquisados inclui secretários e subsecretários, dirigentes de autarquias e fundações, assessores especiais, chefes de gabinete de ministros, diretores de departamento, consultores jurídicos, secretários de controle interno, subsecretários de planejamento, orçamento e gestão.A pesquisa mostra ainda que, de 1996 a 2006, os cargos DAS-5 cresceram de 503 para 936 (86%); os DAS-6, de 128 para 194 (51,56%); os NES, de 51 para 50 (menos 2%). O número geral de cargos de confiança de DAS-1 a DAS-6, mais NES, de 1996 a 2006, passou de 17.227 para 19.797 - aumento de 14,2%.No período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira cresceu 19,2%. De 2002, último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, até o fim de 2006, último ano do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o número de cargos cresceu de 18.374 para 19.797, ou seja, 7,7%. A população brasileira, no período, aumentou 7,9%.

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