Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Eles pediram votos, mas agora querem a saída de Bolsonaro

Janaina, Frota, Bozzella: o que defendem os ex-aliados do presidente da República

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2020 | 09h37
Atualizado 17 de março de 2020 | 13h34

Ao menos três parlamentares que apoiaram as eleições de Jair Bolsonaro em 2018 agora falam em impeachment, renúncia ou teste de sanidade mental para o presidente. Outros políticos, que também participaram da campanha de Bolsonaro, não chegam a cogitar essas medidas, mas já se dizem arrependidos do voto.

Ex-aliado de Bolsonaro, Alexandre Frota (PSDB) planeja pedir o impeachment do presidente. Ele chegou a anunciar que entregaria o pedido ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, nesta terça, 17, mas informou ao Estado que decidiu adiar o protocolo em função da discussão sobre temas relacionados ao coronavírus na Casa. O deputado federal vai alegar que Bolsonaro cometeu crimes contra a saúde pública ao ignorar a orientação de ficar em isolamento e cumprimentar seus apoiadores durante a manifestação pró-governo.


Frota foi expulso do PSL em agosto do ano passado após críticas ao governo e a Bolsonaro. Na época, afirmou que não se arrependia dos sete meses em que foi governista. “Vou continuar torcendo e votando (com o governo) quando tiver que votar. Acho que lições são para serem vividas."

Questionado se outros parlamentares apoiam seu pedido, Frota afirmou que não “fala” ou “aponta outros”, mas que conversou com Júnior Bozzella (PSL-SP), Nereu Crispim (PSL-RS), Joice Hasselmann (PSL-SP) e Rodrigo Maia, o primeiro a ser informado, segundo ele. “Avisei o líder Carlos Sampaio (PSDB-SP), mas a peça é minha. Neste momento, não tenho que falar com ninguém. Depois, caso o processo vá para frente, aí começa a rodada com líderes e depois deputados.”

O deputado Júnior Bozzella (PSL-SP) também apoiou Bolsonaro nas eleições de 2018 e hoje defende que o presidente faça um teste de sanidade mental, antes de se pensar em impeachment. “A quebra de decoro tem acontecido diariamente. O fato mais grave foi o último, quando ele cumprimentou manifestantes mesmo sendo um polo de contaminação do coronavírus”, afirmou Bozzella.

Antes de cogitar impeachment, ele defende um processo de intervenção mediante as condições mentais do presidente. “Há realmente uma irresponsabilidade beirando a insanidade.”

Nos bastidores do Congresso, há muitos parlamentares inconformados, mas que talvez não tenham a coragem de publicamente se apresentar e fazer o debate sobre o impeachment ou exame de sanidade, afirmou Bozzella. “O bolsonarismo não gosta de ser contrariado, observado e criticado. Eles não querem ter sua reputação assassinada pela milícia digital. Com o passar do tempo, as pessoas vão passar a ter coragem de fazer um debate franco."

O teste de sanidade vai ao encontro do que defendeu o jurista Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff, na última segunda-feira. Ex-ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso, Reale disse que o presidente deve ser considerado "inimputável" por ter participado da manifestação de 15 de março.

Também autora do pedido de impeachment de Dilma, a deputada estadual Janaína Paschoal chegou a ser cogitada com vice na chapa de Bolsonaro, mas recusou por “questões familiares”. Sua aproximação com Bolsonaro foi motivo de racha com Reale, que na época afirmou ter recebido a notícia “com muita tristeza”.

Hoje os dois caminham contra Bolsonaro. Janaína não mencionou o teste de sanidade, mas disse que o presidente deveria deixar o cargo pois a situação é tão urgente que não há tempo para um processo de impeachment. Para a deputada estadual, o gesto de Bolsonaro de cumprimentar manifestantes é “crime contra a saúde pública”. "Eu me arrependi do meu voto. As autoridades têm que se unir e pedir para ele se afastar, não temos tempo para um processo de impeachment", afirmou.

‘BolsoDoria’

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também se disse arrependido do voto em Bolsonaro. Nas eleições, ele chegou a fazer campanha usando uma camiseta com o escrito ‘BolsoDoria’ (confira a cronologia de como o 'BolsoDoria' acabou). “Me arrependo, sim”, afirmou Doria, em entrevista à CNN. “Eu não tenho compromisso com o erro. Se erros foram cometidos, inclusive por mim, eu tenho obrigação de corrigir.”

‘Posicionamentos são isolados’

Os parlamentares a favor do impeachment de Bolsonaro ainda são casos isolados, afirma o senador Major Olímpio (PSL-SP). Para ele, essa discussão poderia piorar o quadro de instabilidade política do País e não trazer benefícios para nenhum dos lados. “É apagar incêndio com gasolina. Não dá para discutir uma coisa dessa natureza neste momento.”

Olímpio não acredita que haja razões para enquadrar o impeachment do presidente, mas afirma que houve exageros contra profissionais da imprensa e no apoio às manifestações de 15 de março contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).  

“Vamos por etapas: a dor agora é colocar recursos disponíveis para a saúde pública. Depois, vamos tentar fechar as feridas abertas por conta dos posicionamentos”, disse o senador.

Tudo o que sabemos sobre:
Jair Bolsonaro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.