Eleitores tendem a rejeitar ''baixaria eleitoral''

Na história da democracia, candidatos que recorrem a apelações são rechaçados nas urnas

João Domingos, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

17 de outubro de 2008 | 00h00

A história da democracia brasileira pós-regime militar (1964-1985) registra que o eleitor mais rejeita do que apóia candidatos que recorrem a apelações e outros expedientes de exploração da boa-fé ou da ingenuidade social para tentar levar vantagem sobre os adversários políticos. No senso comum, é a chamada "baixaria política".No caso atual, em que o comitê da ex-prefeita Marta Suplicy (PT) fez insinuações a respeito das preferências sexuais do prefeito Gilberto Kassab (DEM), petistas influentes que condenam a estratégia avaliam que a candidatura padece de uma espécie de desespero eleitoral desde que as primeiras pesquisas de intenção no segundo turno registraram 17 pontos de vantagem de Kassab sobre Marta.É nesse clima político - ora para consolidar a dianteira, ora para tentar tirar o atraso nas intenções de voto -, que as campanhas registram outros exemplos de baixaria eleitoral. Como em Maceió, em 1996, na disputa pela prefeitura da cidade. A então deputada estadual Heloisa Helena, na época no PT, entusiasmou-se com a subida espetacular na preferência dos eleitores na última semana de campanha e tentou dar o xeque-mate em Katia Born (PSB) chamando-a de "sapatão". Abertas as urnas, Katia venceu a eleição por meio ponto de vantagem.Em 1998, o governador Antonio Britto (PMDB), do Rio Grande do Sul, tentava a reeleição numa disputa com Olívio Dutra (PT). Aparecia como favorito. Nesse contexto, partiu para o ataque com um argumento que julgava fatal: o de que o adversário era "cachaceiro". Olívio reagiu e venceu a eleição que parecia perdida, embora tenha usado na campanha propostas discutíveis do ponto de vista eleitoral, como o da expulsão da Ford do Rio Grande do Sul - que acabou cumprindo. A essa decisão é atribuída a derrota de Tarso Genro para Germano Rigotto (PMDB) na eleição seguinte.Também em 1998, o governador do Distrito Federal Cristovam Buarque (PT) aparecia como favorito disparado à reeleição. Seu adversário era Joaquim Roriz (PMDB). No último debate, Cristovam massacrou Roriz, zombou da forma como pronunciava as palavras e disse que o peemedebista "nem sabia falar o português". Roriz, que tropeça nas palavras deliberadamente, venceu a eleição, apesar de as pesquisas de boca-de-urna terem apontado a vitória de Cristovam. Essa reação em cima da hora do eleitorado levou o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, a dizer que nunca mais faria pesquisas no Distrito Federal.Um dos casos mais famosos em matéria de apelação político-eleitoral ocorreu em 1989, no segundo turno da disputa presidencial, entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. Nos últimos programas da propaganda gratuita, Collor levou para a televisão o depoimento de Miriam Cordeiro, com quem Lula teve a filha Lurian. Miriam disse que Lula a havia pressionado a fazer um aborto quando soube da gravidez. O depoimento chocante pode não ter sido o grande responsável pela derrota de Lula, mas os marqueteiros não têm dúvida de que ajudou a tirar votos do petista.Em 2006, a Polícia Federal prendeu um grupo de petistas que haviam tentado comprar, por R$ 1,75 milhão, um dossiê contra o tucano José Serra, rival do senador Aloizio Mercadante (PT) na eleição. Foi fatal para a campanha de Mercadante o efeito da participação de alguns integrantes da campanha do PT na ação, entre eles o ex-bancário do Banco do Brasil Expedito Veloso e o ex-churrasqueiro de Lula Jorge Lorenzetti. Irritado com a atitude dos companheiros, Lula os qualificou de "aloprados", nome pelos quais são conhecidos até hoje.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.