Eleitorado da terceira colocada se decidiu antes dela

Cientista político análisa impactos da decisão da ex-ministra de apoiar tucano

Carlos Melo, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2014 | 02h01

Eleição é fenômeno dinâmico: repleto de acontecimentos, adesões, críticas, ataques e contra-ataques cotidianos. No 2.º turno, o processo é ainda mais vertiginoso. Tudo se precipita. Longe vai o tempo em que caciques procrastinavam e, por fim, conduziam as bases ao rumo pretendido. O processo de transferência é controverso e duvidoso, há cada vez menos condutores naturais de votos. O eleitor vota de acordo com o líder, ou é o líder que se antecipa ao eleitor? Leonel Brizola, que na campanha presidencial de 1989 apoiou Luiz Inácio Lula da Silva contra Fernando Collor, é exceção, não a regra. Na maioria das vezes, a definição do eleitor se impõe.

Claro que a adesão de Marina Silva à candidatura do PSDB é importante para Aécio Neves: não se despreza apoio, menos ainda de uma adversária que, no 1.º turno, teve 21,3% dos votos válidos. A adesão reforça o tônus positivo da campanha tucana e isola Dilma Rousseff, dá boas imagens ao programa de TV e propicia a fixação de um discurso mudancista, permitindo a utilização de metáforas grandiloquentes, mas não é exatamente assim. Os principais aliados e assessores da ex-senadora Marina já haviam se posicionado e, como uma maré, a levaram ao mar de ondas do ex-surfista Aécio.

Positivo para Aécio, mas, nesta altura, possivelmente neutro para Dilma: de acordo com as pesquisas, também o eleitorado de Marina, independentemente da opinião dela, já se posicionou majoritariamente em favor de Aécio e, em menor medida, em relação a Dilma. Fatos e áudios vindos de escândalos na Petrobrás talvez sejam mais efetivos que o pronunciamento da ex-senadora. Dilma não pode perder o que nunca teve, nem Aécio ganhar o que já conquistara.

Quem parece ter perdido mais foi mesmo Marina. Não pela decisão - de resto, legítima -, mas pela demora, pela espera, pela aparente indefinição e por ter retirado de Aécio menos do que exigiu "programaticamente", para usar sua expressão favorita. Políticos mais sagazes sentem mais cedo o pulsar das ruas e se antecipam a eleitores. Marina, atropelada pelo fatos, mais uma vez foi a reboque das circunstâncias. Seu apoio é quase um romance de outono: pode-se senti-lo, é claro, mas mais proveitoso seria se o vivesse mais cedo.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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