Eleitor espera governo que una crescimento a inclusão, diz professor

Para Avritzer, desafio de candidatos ao Planalto é mostrar que podem melhorar economia sem colocar conquistas sociais em risco

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2014 | 02h05

O eleitorado brasileiro está passando aos candidatos à Presidência dois recados claros: ele quer crescimento, mas sem deixar de ampliar a inclusão social. "O candidato que convencer o eleitor de que consegue estabilizar a atual crise (econômica) numa via de maior inclusão e maior aumento do mercado de trabalho será provavelmente o que receberá maior apoio", avalia o cientista político Leonardo Avritzer, da Universidade Federal de Minas Gerais e presidente da Associação Brasileira de Cientistas Políticos (ABCP).

Sua avaliação constitui, na prática, um desafio para os três principais candidatos ao Planalto. Em resumo, a presidente Dilma Rousseff (PT) valorizou inclusão mas o País não cresceu. Aécio Neves (PSDB) promete mudanças na economia mas sua agenda para a inclusão ainda não é clara. Eduardo Campos (PSB) fala em conciliar as duas metades mas ainda não "vendeu" a mensagem.

Esse cenário eleitoral, o impacto da economia nas urnas e a agenda social estão no centro das discussões do 9.º Congresso Nacional de Cientistas Políticas, promovido de hoje até quinta-feira, em Brasília, pela associação presidida por Avritzer. O evento vai reunir 1.100 pessoas em mais de 800 palestras e mesas-redondas. Em conversa com o Estado, ele fez um cruzamento dos temas da campanha com os do encontro, que receberá estudiosos de Argentina, Chile e EUA, entre outros. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A temperatura da campanha "A temperatura está quente e assim ai se manter até o fim da disputa. Por um lado, o PT tem 12 anos no poder, e isso conta. Mas não estou convencido ainda de que a oposição tenha um programa muito claro para mudar. Aécio Neves (PSDB) tem um enorme desafio, que é conquistar o eleitorado paulista."

O debate econômico

"Na economia, vejo duas situações. Uma delas é a do emprego e da capacidade de consumo da população, que está relativamente estável. A outra é a performance da economia em si, que tem sido questionada pelo mercado financeiro e pelo grande empresariado. Nessa intercessão se dará boa parte da disputa. Minha impressão é que o eleitor quer crescimento de modo estável, mas dentro de uma via fortemente inclusiva. Quem convencer o eleitor de que consegue estabilizar a crise numa via de maior inclusão e aumento do mercado de trabalho, provavelmente receberá o maior apoio."

Alianças políticas

"A qualidade da representação é um problema crucial, mas o País não vai sair do presidencialismo de coalizão. Quem vencer vai ter de se compor - ou terá de fazer uma reforma política. Se a presidente Dilma se reeleger e contar com uma bancada maior do PT no Congresso, o custo dessa coalizão tende a ser menor. No caso de vitória de Aécio, o PSDB começa menor e terá de negociar mais."

Redes sociais

"Até 2010 as redes sociais influenciaram muito pouco. Mas a expansão dessas mídias no Brasil tem sido significativa. Acho que todos os candidatos são hoje vulneráveis ao que circula na rede e não poderão ignorá-la."

Os jovens e a campanha

"Nossas formas mais institucionalizadas não incorporam muito bem a população jovem. Temos pesquisas mostrando que a média de idade dos presentes nos orçamentos participativos é superior aos 40 anos. O mesmo se dá nas conferências nacionais, que envolvem mais de 6 milhões de participantes. Eram jovens, em sua maioria, os que em 2013 protestavam nas ruas. Não vejo nas campanhas os candidatos dizendo que eles terão seu lugar."

Impunidade

"A impunidade é um dos nossos maiores desafios. É a ideia de que, no Brasil, muita gente não paga por seus crimes. Queremos ver qual o peso que essa questão vai ter na campanha."

Acerto com o passado

"Nossa democracia obteve grandes avanços mas ainda não descobriu uma forma democrática, dentro das regras do jogo, de acertar contas com o passado. É outro tema essencial."

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