ANÁLISE: Eleições gerais seriam a aposta mais popular, mas haveria riscos

As denúncias que atingiram Michel Temer são as mais graves da história do Brasil sobre um chefe de Estado. Nem o impeachment de Collor se baseou em provas tão cabais como a gravação dentro do gabinete presidencial. Os historiadores conhecem bem o caso das cartas falsas de Artur Bernardes na distante República Velha. Elas desataram uma crise militar que acabaria por demolir o regime político anos depois. E, no entanto, eram falsas... Já aqui não parece haver dúvida que o atual presidente cometeu um crime no exercício do mandato.

Lincoln Secco*, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2017 | 05h00

Estamos diante do risco de mergulhar o País numa crise generalizada de autoridade sem que haja uma força política para recompor as instituições. Como nos anos 1920, à crise política se soma a econômica e, no lugar dos tenentes com seu discurso moralizador, aparecem os juízes.

Fossem outros os tempos, haveria partidos capazes de constituir uma coalizão para levar o País até as próximas eleições. Em 1930, Getúlio Vargas liderou um arranjo de oligarquias dissidentes apoiado pelo Exército e instaurou um novo regime político.

Em tempos mais recentes, após a queda de Collor, seu vice, Itamar Franco, cumpriu esse papel ao liderar uma aliança dos grandes partidos. Isso não é possível hoje por dois motivos: eles estão desmoralizados e viveram um período de radicalização que destruiu as pontes de entendimento entre eles.

Já um presidente eleito indiretamente teria o mesmo pecado de origem do governo atual que é a falta de legitimidade obtida nas urnas. E sua escolha caberia a um Congresso suspeito de corrupção.

Mesmo que se elegesse alguém acima dos partidos, essa pessoa teria que governar com eles e se posicionar sobre as reformas que aprofundaram a impopularidade de Temer: a trabalhista e a da Previdência.

Uma emenda constitucional que permitisse as eleições diretas teria a vantagem de devolver ao povo o poder que é dele numa democracia. Só que o eleito teria um mandato curto demais para não decepcionar os eleitores.

Refundar a República mediante eleições gerais do Congresso, do Presidente e de uma Assembleia Constituinte exclusiva seria a aposta mais popular. Mas, como toda aposta, comportaria riscos como um regresso conservador ou a eleição de um outsider sem apoio organizado na sociedade civil. E a probabilidade seria mínima, pois a história nos ensina que políticos em seus mandatos jamais largam o osso.

A crise ainda parece não ter fim.

*HISTORIADOR E PROFESSOR DA USP

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