alberto César Araújo|Estadão | ESTADAO CONTEUDO
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Eleição para um ano e meio de mandato

Amazonas escolhe neste domingo novo governador após cassação de José Melo; Ministério Público Eleitoral apura novas denúncias de compra de votos

Pedro Venceslau, enviado especial, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 03h31

MANAUS - Na segunda-feira passada, dezenas de militares e 15 servidores do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) especialistas em transmissão de dados iniciaram viagem de barco que só terminaria dois dias depois. O grupo cruzou 983 quilômetros de rio, entre Manaus e os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Maraã e Itamarati, para preparar a eleição suplementar do governo do Amazonas, marcada para este domingo, 6.

Enquanto na última semana as atenções estavam voltadas para a Câmara dos Deputados, em Brasília, que votava a denúncia contra o presidente Michel Temer, as Forças Armadas mobilizavam 4,4 mil militares, 87 embarcações e cinco helicópteros para garantir que o pleito transcorra normalmente, especialmente nas 30 regiões mais remotas do Estado.

Em um processo judicializado e cercado de incertezas, a nova eleição foi marcada após a cassação, em maio, do mandato do governador José Melo (PROS) e de seu vice, Henrique Oliveira (SD), por compra de votos. O motivo da cassação de Melo, contudo, foi tema dominante na campanha convocada às pressas.

Ao todo nove candidatos disputam um mandato-tampão de 15 meses. Três deles, que já foram do mesmo grupo político, aparecem mais bem posicionados nas pesquisas – os ex-governadores Amazonino Mendes (PDT) e Eduardo Braga (PMDB) e a ex-deputada Rebecca Garcia (PP).

Diversas denúncias chegaram ao Ministério Público Eleitoral (MPE) local: de carros-fortes que teriam sido usados para transportar malotes de dinheiro para eleitores no interior à distribuição de panelas, bonecas e ventiladores por um prefeito. Esses dois casos ainda não foram analisados, por isso os nomes dos envolvidos foram preservados.

O MPE investiga também a denúncia de que um barco, que teria sido alugado pela Secretaria de Educação de Parintins, foi flagrado com material de campanha de Amazonino. Um recibo que revelaria o vínculo. A assessoria do candidato não atendeu às ligações da reportagem.

O caso mais rumoroso e recente foi uma ação cautelar da Procuradoria Eleitoral contra Rebecca e o governador interino, David Almeida (PSD), por uso da máquina pública. A ação relata a demissão de 48 servidores da Superintendência Estadual de Habitação que teriam se recusado a fazer campanha para a candidata, aliada de Almeida.

Ao Estado, Rebecca tratou a acusação como “mais uma falácia em período de campanha”. “Houve uma mudança de governo. É natural que haja mudança nos cargos de confiança”, afirmou. O governador também disse considerar “natural” as mudanças.

Incertezas. O ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, confirmou a realização da eleição somente na quinta-feira, 3, horas antes do debate final que reuniu oito dos nove candidatos na afiliada da TV Globo.

Lewandowski já havia suspendido a eleição uma vez, em julho (a decisão foi derrubada pelo ministro Celso de Mello), e a campanha seguia sob o clima de indefinição. Em sua decisão, o ministro ainda deixou uma incerteza jurídica: o vencedor só será diplomado após o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgar os recursos, o que não tem data para ocorrer. No sábado, 5, o PROS, partido do governador cassado, entrou com um mandado de segurança no TSE alegando que o TRE do Amazonas cadastrou eleitores fora do prazo previsto na Lei das Eleições. O pedido, porém, foi indeferido, na noite de sábado, pela ministra Rosa Weber.

Eleitorado. As 82 famílias que vivem em Vila Catalão, uma comunidade de palafitas no município de Iranduba, na divisa com Manaus, usarão canoas e pequenas embarcações para chegar até o local de votação, uma escola flutuante de madeira.

Ao Estado, a dona de casa Adriana Borges da Silva, de 20 anos, disse que planeja ir com o marido e o filho, de 3 anos, até a urna, que fica a poucas remadas de sua palafita. Ela ainda não tem candidato. “Nessa campanha não apareceu ninguém por aqui. Nem parece eleição.”

Em outro extremo de Catalão, o pescador João Félix Pinto da Silva, de 31 anos, brincou com o pouco tempo de duração do mandato. “Pelo menos, se der errado vai durar pouco.”

Ele também “reparou” na ausência de políticos na comunidade e disse que os candidatos devem estar mais preocupados com a capital. Pudera: dos 2,3 milhões de eleitores aptos a votar hoje, 1,2 milhão são de Manaus.

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