Eleição eclética abre espaço para motoboy, pescador e manicure

Lista do TSE com as ocupações de candidatos revela que uma multidão de menos votados decidiu entrar no jogo

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2008 | 00h00

Longe vão os tempos em que entrar na política era um luxo de empresário, fazendeiro, médico e advogado. Uma listagem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com as ocupações dos quase 380 mil brasileiros que concorrem a algum cargo em outubro revela que uma multidão de menos votados - quase nunca votados - decidiu entrar no jogo.São padeiros, vigilantes, manicures, garçons, motoboys, funileiros, frentistas de postos, faxineiros e dezenas de outras profissões - gente que os partidos sempre ignoraram e que procuraram as zonas eleitorais e preencheram uma ficha, em busca de uma vaga de prefeito, vice ou vereador nas 5.564 cidades brasileiras. A lista de mais de 180 ocupações aparece quase integralmente entre os 15.331 concorrentes a prefeito. Ela inclui 10 barbeiros, 8 taxistas, 6 vigilantes, 24 motoristas particulares, 3 padeiros, 2 pescadores, 1 motoboy, 1 lavador de carros, l frentista de posto, 2 bailarinos e 1 cozinheiro. Mais 847 definiram sua ocupação no campo "outros".Já entre os 348.530 candidatos a vereador, há 558 motoboys. Ao lado deles, 83 lavadores de carro, 11 flanelinhas, 273 faxineiros, 199 garis, 36 coveiros e 60 catadores de recicláveis - o pessoal que recolhe papelão e madeira em lixeiras e caçambas, puxando uma carroça com a força dos braços. Essa babel de conquistados pela política formal tem ainda artista de circo, manicure, recepcionista, atendente de lanchonete e até guardador de carro. Diante de tanta variedade, o TSE não tem idéia do que fazem mais 39.624 cidadãos que se definiram como "outros"."Há, de fato, uma disseminação impressionante das ocupações, entre essas centenas de milhares de pré-candidatos", diz o cientista político Francisco Foot Hardman, da Unicamp. Para ele, esse processo vem crescendo, devagarinho. Mesmo antes da Constituição de 1988 as eleições para governador e prefeito das capitais "marcaram a entrada, na cena política, de novos atores, tanto dos movimentos sociais quanto de partidos não previstos inicialmente". Para o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Paulo (UFSCAR), "é possível pensar em uma democratização das candidaturas". Ele a atribui, em parte, "ao grande número de partidos com registro no TSE". No conjunto, é claro, esses recém-chegados ainda não são páreo para os concorrentes tradicionais. Na corrida às prefeituras, por exemplo, o cenário continua habitado por levas de advogados (809), empresários (1.447), médicos (979), professores (812) e comerciantes (1.380), além dos 2.094 prefeitos que buscam a reeleição. E buscam uma cadeira nas Câmaras Municipais 10.229 empresários, 5.454 advogados, 2.451 médicos e 17.569 vereadores que tentam mais quatro anos no cargo. A presença das estruturas sindicais aparece no grande número de trabalhadores de construção civil (2.968) e de agricultores (8.119). A lista não esclarece, no entanto, quantos destes últimos são grandes proprietários rurais, pequenos lavradores ou empregados. Mas é um cenário bem diferente do que existia quatro ou cinco décadas atrás. Um país que, no início dos anos 60, tinha cerca de 15 milhões de eleitores saltou para 125,9 milhões - praticamente um de cada sete cidadãos. Esse número de candidatos não é definitivo: muitas candidaturas acabam indeferidas pelos juízes eleitorais, quando estes aplicam no interessado um teste de escolaridade. "E é preciso ver quem vai vencer as eleições", adverte Villa. "Pode ser que os vencedores excluam as profissões com menor escolaridade." SEM DIPLOMAEssa multidão de recém-chegados à política formal representa novos desafios para os tribunais e para os partidos. Juízes eleitorais enfrentam uma tarefa bem maior com a grande quantidade de candidatos analfabetos. Chega a 45% o total dos candidatos sem ensino médio - e deles 53% nem sequer terminaram o ensino fundamental. São quase 170 mil pré-candidatos nessa condição, em todo o País. Nas contas do IBGE, o analfabetismo é dominante em um de cada seis municípios brasileiros.Na prática, os juízes eleitorais ficam divididos entre a lei e o mundo real. O art. 14º da Constituição determina, em seu parágrafo 4º, que "são inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos", mas não se define o que é, exatamente, um analfabeto. A Justiça Eleitoral leva em conta que muita gente sem diploma sabe escrever um pouco, tem experiência prática e perfeitas condições para a atividade política. Por isso, enquanto muitos tribunais estão indeferindo registros de gente que não passa no teste de escolaridade, outros são mais tolerantes. Dos 713 concorrentes do Recife, por exemplo, nenhum perdeu o registro por causa de analfabetismo. Cabe lembrar, segundo o historiador Villa, que o debate político "é pobre independentemente da escolaridade dos candidatos. Nas grandes cidades, essa escolaridade de prefeitos e vereadores é razoavelmente alta e nem por isso elas são bem administradas ou o debate é de bom nível. O problema é a pobreza na elaboração de propostas para a gestão municipal. A maioria dos candidatos não sabe as atribuições de um vereador". Para os partidos, o crescimento de grupos organizados nas periferias - de onde surgem muitos desses candidatos - cria novas tensões. "Os partidos têm seus aliados nessas áreas, mas procuram controlá-los e fazem de tudo para tirar espaço dos líderes comunitários independentes", lembra o presidente do PPS em São Paulo, Carlos Fernandes. "Se os deixarem livres, eles assumirão vôo próprio e o partido perde o controle do eleitorado local." Para o professor Foot Hardman, há outro problema a considerar. "É terrível constatar que essa diversificação socioeconômica e sociocultural esbarra num sistema político arcaico, refém dos piores clientelismos." É um quadro de "partidos-máquinas sem programa nem ideologia, Legislativos auto-imunes a controles da sociedade". "Muitas vezes a energia de candidatos jovens e excluídos é rapidamente neutralizada nessas tramas locais de um mesmo novelão reiterador do status quo."

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