Eleição acirra briga antiga de Lula e FHC, diz analista

David Fleischer, da UnB, diz que os dois estão muito focados na eleição em São Paulo no momento

Gisele Silva, do estadao.com.br,

27 de março de 2008 | 13h53

A troca de farpas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na última quarta-feira, 27, tem mais a ver com as eleições municipais de 2008 e a sucessão presidencial em 2010 do que com a polêmica em torno da quebra de sigilo dos gastos da Presidência, tema-chave da discussão. A análise é do cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer. "Para chegar a 2010, tem que passar por 2008", disse.  Lula e FHC protagonizaram uma queda-de-braço em torno da quebra de sigilo dos cartões da Presidência. Após a blindagem da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, na CPI dos Cartões, presidente atacou a oposição e disse para tirarem o "cavalinho da chuva" porque ele fará o seu sucessor. Já o ex-presidente, que autorizou a quebra do sigilo dos seus gastos, cobrou de Lula que faça o mesmo.  Veja também: Ouça a entrevista com David Fleischer Um dia após troca de farpas, Lula não fala de CPI e sucessão Ouça a íntegra do discurso irritado de Lula  IMAGENS: Os momentos de 'amor e ódio' de FHC e Lula  ENQUETE: A CPI dos Cartões deve quebrar sigilo de Lula e FHC?  Entenda a crise dos cartões corporativos  FHC cobra dados de cartão de Lula, que reage e diz que fará sucessor Relação, já conflituosa, azedou com mensalão Em sessão marcada por bate-boca, CPI rejeita convocação de Dilma PSDB pede apuração de vazamento sobre dossiê  Segundo ele, tanto Lula quanto FHC estão muito focados em São Paulo no momento por conta das eleições deste ano, uma vez que nos dois partidos - PT e PSDB - quem manda são os paulistas. "A cidade de São Paulo terá candidato do PSDB e DEM, e Marta (ministra do Turismo, Marta Suplicy) tem grandes chances de voltar", o que preocuparia os tucanos. Fleischer diz ainda que os tucanos temem ainda ficar mais dois mandatos fora do poder em um cenário em que Lula consegue eleger seu sucessor em 2010 e volte em 2014. "Lula pode dar uma facada nos tucanos (em 2010) se Aécio deixar o PSDB e for o candidato do governo numa eventual coligação com Ciro Gomes (deputado federal do PSB). Isso seria terrível para o PSDB", avaliou.  O cientista político diz que a briga de Lula e FHC é antiga e se tornou mais áspera a partir de 2003, quando Lula assumiu o comando do País. À época, lembra Fleischer, "FHC fez algumas depreciações do governo Lula e Lula começou a revidar dizendo que FHC quebrou o País e ele precisava colocar o Brasil nos trilhos de novo". Ele contou ainda que as charges daquele ano refletiram muito bem as semelhanças dos dois em termos de projeto de País. "No início de 2003, os chargistas colocaram Lula e FHC brigando por causa de um livro. FHC dizia: 'você está roubando minha agenda'. E o Lula respondia: 'não, a agenda é minha'. Na verdade, Lula levou adiante a agenda de FHC", afirmou.  Já no estilo pessoal, presidente e ex-presidente são muito diferentes, conclui Fleischer. "FHC é doutor, grade intelectual, tinha sido senador e ministro, nasceu em berço de ouro. Lula vem de liderança sindical, era torneiro mecânico. Até o linguajar é diferente. Lula tem facilidade de dialogar com o povão. O povão sente: 'ele é um de nós'. FHC sempre teve dificuldade de dialogar e discursar junto ao povão".

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