Elegia às mulheres da Maria Antonia

As decepções políticas foram dolorosas. É impossível fazer carreira e criar filho sem decepções e perdas

Anna Veronica Mautner* ,

24 de julho de 2008 | 01h00

Bem antes da chegada da onda efervescente feminista, a dupla jornada constituía-se como grande conquista de uma geração, jamais como um fardo. A geração das médicas, advogadas, professoras dos anos 50 e 60 se orgulhava em conseguir acumular e exercer todas as funções de lar e carreira. Ruth fez parte dessa geração de batalhadoras. Na Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia, ela junto com outras mulheres - todas muito especiais - instaurou um novo estilo de vida. Enquanto no resto da população ainda se sonhava ficar em casa depois do casamento, como um privilégio, ou no máximo trabalhar em magistério, onde os horários e as férias coincidiam com a dos filhos, elas já estavam vários passos à frente. Lá na Maria Antônia, dava-se peso igual à carreira, à casa, ao marido e aos filhos; e todas essas atribuições eram executadas com igual cuidado. As mulheres da Maria Antônia desenvolveram um estilo próprio de vestir e se cuidar, da mesma forma que criaram um jeito próprio de lar e educação dos filhos. Trabalhar foi a grande conquista individual dessa geração de pensadoras e mestras. Fizeram tudo isso sem abandonar nem o papel maternal nem o feminino.  Era com um sorriso que Ruth e suas colegas gerenciaram durante anos a sua dupla pertinência ao lar e ao mundo.  Na faculdade, a jovem Ruth de Araraquara se enturmou com outras tantas jovens vindas de famílias diferentes entre si, mas todas igualmente orgulhosas em participar da criação deste novo estilo de viver. Alegremente misturaram a tradição familiar de cada uma com o estilo dos mestres, que eram todos estrangeiros ou muito viajados. Dessa mistura resultou um jeito muito peculiar de casamento e carreira. Em casa, por exemplo, todas tinham móveis modernos misturados com móveis coloniais recém introduzidos na decoração neomoderna que estava sendo criada. Todas tinham boas noções de cozinha, queriam implementá-las e delas se orgulhavam. Todas tinham trazido para suas novas casas um pouco de enxoval à moda antiga e gadgets modernos. Para os seus filhos, foram escolhidas escolas modernas - montessorianas, construtivistas, experimentais em geral.  Assim foi dona Ruth Cardoso como precursora. Não lembro ouvir nem dela nem de suas colegas queixas sobre o peso da tripla jornada: faculdade, marido, filhos, casa não só combinavam como se complementavam. Essas mulheres não se queixavam, pois tinham pela frente a certeza de estarem participando da criação de um mundo melhor de igualdade e liberdade. Eram politizadas. Olhavam para as décadas à sua frente na certeza de que seriam melhores ainda do que os momentos que viviam. A fé no futuro dava sentido à labuta diária. Dar aula, preparar aula, fazer pesquisa, redigir artigos e teses não atrapalhavam a riqueza do cotidiano novo que iam estabelecendo. Não demorou muito para 64 chegar. E logo depois 67, o AI - 5 e o exílio.  Dor. Ruptura nos projetos  No Chile, França e Inglaterra, as triplas jornadas continuaram. Todos acreditavam num retorno. O exílio foi triste, mas foi estruturador. Os exilados eram a família um do outro e fertilizavam-se ininterruptamente. O retorno foi lento, realizado por uma família de cada vez. Um belo dia estavam de volta aos seus cargos e carreiras em São Paulo.  O itinerário de dona Ruth foi mais complicado do que o das outras. Manter-se fiel ao ideário dos anos 50/ 60, vivendo no Palácio da Alvorada, não é obra para gente pequena. Ela conseguiu. Não virou nem casaca nem gola.  Durante o exílio, as mulheres foram atropeladas e participaram de movimentos feministas. Sem perceber, a dupla e tripla jornada saiu da categoria de conquista individual para transformar-se em direito coletivo.  Que pena!  Essa geração salvou-se da contaminação nefasta do direito à liberdade. Liberdade é conquista. Continuaram orgulhosas pela vida a fora da grande ruptura que cada uma realizou individualmente. Não receberam os direitos feministas de mão beijada. Criaram-nos. Foram evoluindo, se transformando, conforme as circunstâncias exigiam. Não é que à boca pequena não sentissem cansaço.  Exílio é amargo.  As decepções políticas foram dolorosas. É impossível fazer carreira e criar filho sem decepções e perdas.  Mas o ar que essa geração, a da dona Ruth, respirou foi o do entusiasmo e da esperança, sem credo religioso. O espírito e o pensamento crítico estavam sempre presentes. Na década de 70, ainda mantinham a fé no homem. E ela era tanta que chegava a aturdir.  Faltou em momentos bom senso para evitar as pesadas mãos dos militares, que caíram sem dó sobre essa geração. Muitas vezes, em nome da liberdade, foram condescendentes demais com os filhos e alunos. Muitos casamentos se desfizeram - não o da Ruth. (A quase simbiose de objetivos e funções, carinho e respeito entre Ruth e Fernando foram mais fortes do que intempéries naturais). Conheceram-se muito jovens, bem no início da reformulação das tradições trazidas para a nova ágora que foi a faculdade de filosofia. Tão ávidos eram pela nova maneira de ser que estava sendo engendrada que não dá para imaginar viagens solo. Eram turmas, casais e turmas de casais.  Ao lado do caixão da Ruth, Fernando chorou. Sozinho, mas com os amigos, Fernando chorou. Eu mesma o ouvi dizer: "Como fazer sem ela?" Não foi erro de português, a meu ver. Ele não disse fazer em vez de viver. Eles fizeram juntos uma vida cheia de obras, onde nem mesmo a diferença dos caminhos (ele, senador, Presidente da República) a deixou na sombra. Ela se construiu em torno da sua ideologia, que era parecida, mas não igual à dele. Fazer junto não é fundir-se. Ruth nunca se fundiu. Somou, partilhou. Comunidade Solidária foi para o Brasil, mas não era o Brasil.  A morte de dona Ruth abalou alguma coisa neste tão árido mundo em que vivemos. Por uns poucos dias, uma onda de simpatia e solidariedade transbordou pelo mundo. Havia um sorriso de aproximação entre conhecidos e desconhecidos que levava a comentários sobre dona Ruth. Parodiando Chico Buarque:   Mirem-se no exemplo daquelas mulheres da Maria AntoniaVivem pros seus maridos e filhos, orgulho e raça do Brasil.  * A psicanalista Anna Verônica Mautner é membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora do livro "Cotidiano nas Entrelinhas" (editora Ágora)

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