CASA CIVIL/PR-12/3/2019
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Economista é escolhido por Bolsonaro para MEC

Sem experiência anterior na área e com discurso atrelado ao de ‘guru’ de bolsonaristas, Abraham Weintraub ocupará lugar de Vélez; especialistas criticam escolha

Renata Cafardo, Renata Agostini e Mariana Haubert, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 15h19
Atualizado 09 de abril de 2019 | 10h30

BRASÍLIA – Depois do anúncio de medidas polêmicas, recuos e duas dezenas de exonerações, o presidente Jair Bolsonaro demitiu, nesta segunda-feira, 8, o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez. Ele escolheu para o seu lugar um nome com influência no governo, o então número dois da Casa Civil, Abraham Weintraub. Economista com experiência em empresas privadas, foi alçado ao cargo como uma solução para os problemas de gestão da pasta. A indicação, no entanto, preocupa especialistas. Assim como Vélez, o novo ministro nunca trabalhou com políticas educacionais e mantém um discurso ideológico atrelado ao escritor Olavo de Carvalho, com críticas ao chamado “marxismo cultural”. 

Em entrevista ao Estado, Weintraub disse que fará uma gestão técnica, o que não significa que trabalhará desconectado das convicções do governo Bolsonaro, que tem “uma ideologia clara”. “Minha missão é cumprir o que foi escrito no programa de governo de forma serena, tranquila e eficiente, de forma a gerar bem-estar ao cidadão.” O novo ministro vai gerenciar uma pasta com orçamento de R$ 130 bilhões e que foi praticamente paralisada pela crise atual.

A escolha frustrou a ala militar do governo que tentava emplacar um nome para compor com o atual secretário executivo do MEC, o brigadeiro Ricardo Machado Vieira. Ele foi colocado no cargo para tentar resolver as disputas internas entre os seguidores de Olavo, o grupo técnico ligado ao governo de São Paulo e os militares. Segundo o Estado apurou, Vieira não deve continuar no cargo. 

Weintraub é atualmente professor licenciado do curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no câmpus de Osasco. Antes, havia trabalhado 18 de seus 47 anos no Banco Votorantim, onde foi de office-boy a diretor. Demitido, seguiu para a Quest Corretora. Ele e o irmão, Arthur, apoiaram Bolsonaro e ficaram próximos de Onyx Lorenzoni desde antes da campanha eleitoral. Foram responsáveis por pensar a reforma da Previdência na equipe de transição e, depois, Abraham se tornou secretário executivo da Casa Civil e Arthur foi para o Ministério da Economia.

Weintraub foi investigado pela Unifesp por uso do logotipo da instituição em trabalhos de consultoria. A sindicância foi arquivada em 2018. O novo ministro da Educação se diz perseguido na universidade, o que motivou até um pedido do então deputado Onyx para uma audiência na Câmara. Ele queria que a reitoria da Unifesp explicasse as “denúncias de agressões, ameaças e perseguições de natureza política” a Abraham e Arthur, também professor da instituição. Os dois entraram em conflito com estudantes depois que passaram a participar da equipe de Bolsonaro. A audiência acabou não sendo realizada.

O economista defende que é preciso vencer o chamado “marxismo cultural” das universidades a partir dos ensinamentos de Olavo, considerado guru do bolsonarismo. Em reuniões com equipes do MEC, já na Casa Civil, ele dizia que as universidades mantêm a esquerda viva e alimentam a oposição a Bolsonaro. Na Cúpula Conservadora das Américas, evento organizado por Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ele falou à plateia que os militantes de direita deveriam adaptar as teorias de Olavo para vencer os embates teóricos com a esquerda. “Eles têm técnica de ganhar essa brincadeira. Mas a gente tem técnica para vencer deles. A gente é a prova disso. A gente adaptou a teoria do Olavo de Carvalho de como enfrentar eles no debate intelectual.”

Ao ser questionado sobre o escritor, o ex-aluno disse ter grande admiração pelo professor. “Ele tem ideias muito boas, mas não sigo ipsis litteris tudo o que ele fala. Não é porque gosto de música clássica que não escute rock and roll de vez em quando.” Olavo comemorou a indicação de Weintraub nas redes sociais. 

Para especialistas, governo aposta outra vez em um desconhecido

 Especialistas da área ficaram surpresos com a indicação, mais uma vez, de um desconhecido do meio para o ministério. “Depois de quase 100 dias de um MEC inoperante, havia uma expectativa de que o governo tivesse aprendido com a situação e colocasse alguém com experiência em gestão pública e com clareza das politicas para melhorar a qualidade de ensino”, disse a presidente do Todos pela Educação, Priscila Cruz. 

“Quero acreditar que ele sabe que o maior problema é o que as crianças aprendem nas escolas. E que o lado ideológico não ponha a perder o que é realmente importante”, afirmou a presidente do conselho do Instituto Península, Ana Maria Diniz. Para o presidente da Associação de Docentes da Unifesp, Daniel Feldman, que foi colega de Weintraub, a perseguição aos professores tem uma “lógica inquisitória” e “pode levar à destruição da universidade”. “Nem uma aula minha e nem do atual ministro jamais estarão isentas de pressupostos teóricos, reflexivos e intelectuais, que nunca podem ser ‘neutros’”, afirmou.

A crise no MEC se intensificou depois que o Estado revelou um e-mail de Vélez em que ele pedia para todas as escolas do País lerem o slogan da campanha de Bolsonaro e filmarem as crianças cantando o Hino Nacional. Ele teve de recuar da medida. Ontem, no Twitter, Vélez agradeceu a “oportunidade” e disse que confiava na decisão de Bolsonaro.

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