Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

‘Ele dá prioridade a coisas não necessárias’, diz turismóloga

Nas ruas de SP, eleitores de Jair Bolsonaro falam sobre sentimento com novo governo

Paulo Beraldo, O Estado de S. Paulo

02 de junho de 2019 | 03h07


“Eu estava colocando muita expectativa nele. Com tudo que vem acontecendo, estou um pouco decepcionada.” A afirmação da turismóloga Luciana Leal condensa, em grande parte, a avaliação de eleitores que votaram no então presidenciável do PSL para evitar a eleição do petista Fernando Haddad e que se dizem agora frustrados depois de cinco meses de governo.

“Achava que ele fosse mudar. Até entendo que a gente não consegue arrumar a casa em pouco tempo pela bagunça que foi deixada. Mas acho que ele está dando prioridade a coisas que não são necessárias agora, o porte de arma, por exemplo. Fiquei esperando mais, e ele está me decepcionando”, acrescentou Luciana, de 42 anos.

Como ela, o Estado consultou ao menos 40 pessoas que circulavam na tarde da última sexta-feira nas proximidades do Viaduto do Chá, região central da capital paulista. Uma área densamente povoada por eleitores de todas as classes sociais e regiões do País. A todos eles, a reportagem fez as seguintes perguntas: votou em Bolsonaro? Por quê? O que acha destes cinco primeiros meses de governo? 

A maioria disse ter votado em Bolsonaro como alternativa ao PT – partido que, embora não tenha sido o único, teve sua imagem mais diretamente relacionada aos recentes escândalos de corrupção. Entre esses eleitores, há quem continue dando apoio incondicional ao governo. “Precisávamos de mudanças. Para cinco meses, ele já fez muito”, disse Pedro Borges, consultor em tecnologia para saúde. “Acredito plenamente no governo e na equipe.” 

Entre os entrevistados, predominou, porém, um misto de decepção e resignação, seja por não conhecer por completo as propostas de Bolsonaro ou por discordar das prioridades escolhidas até agora seja pelos resultados, principalmente na economia.

Luciana critica as prioridades do governo, diante do que chama de necessidades mais imediatas da população. “Está tudo muito caro, as coisas estão aumentando e, em vez de melhorar, está piorando a situação. A gente sente a insegurança, o desemprego está muito grande. Trabalho no centro, vejo filas e filas de gente procurando emprego, muitos pais de família”, disse. 

Ela também critica a reforma da Previdência, principal proposta de Bolsonaro nos seus cinco primeiros meses. “Acho que tem de ter reforma, mas por que ser pior para os pobres? Os ricos, nada mexe, tem auxílio para tudo. Os deputados, a gente sabe que ganham bem, têm todos os auxílios, e a gente não.” 

‘Sem opção’. Funcionário de uma empresa de prestação de serviços, Adão Alfredo Vieira, de 48 anos, votou em Bolsonaro nos dois turnos “por falta de opção”. “É um erro como forma de protesto, né? Não querer votar no outro e acaba votando nesse. Foi uma decepção”, disse. Hoje, Vieira diz estar sem perspectiva. “A gente esperava mais, só que do jeito que a coisa vai estou quase sem perspectiva. Você vê que a coisa não evoluiu, principalmente para o lado do social, né?” 

Severino Alexandre, que não quis revelar a idade, trabalha com resgate de pessoas em situação de rua em São Paulo. Por atuar junto à população mais vulnerável, diz ter autoridade para reclamar das prioridades do governo. “Como ele estava prometendo ações novas, não só eu, mas a maioria que elegeu deu voto de confiança. Só que o discurso que ele fez na campanha e está fazendo, não batem”, afirmou. “Ele não fez nada. Fala muito, usa as redes sociais para atacar e se defender, mas fazer mesmo, trabalhar, ele não faz. Estou do lado dos mais necessitados, e esse lado é o que eles querem mais cortar.”

Também eleitor de Bolsonaro nos dois turnos, Alexandre considera que o atual governo erra quando contingencia recursos da Educação. “O PT cometeu erros, mas investiu naqueles que mais necessitam. Agora ele faz o contrário. Tira o dinheiro das universidades, das pesquisas, tudo aquilo que é preciso... Como um País vai ter futuro se não tem educação, se não investe? Minha indignação é que é um governo sem perspectiva.” 

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