Einstein fará transplantes de fígado pelo SUS

O hospital Albert Einstein, de São Paulo, vai fazer transplantes de fígado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da próxima semana. Esta é a primeira vez que o governo pagará qualquer procedimento na instituição e isso aconteceu porque a equipe pioneira dessa cirurgia na América Latina resolveu deixar o Hospital das Clínicas de São Paulo. A transferência do grupo de 14 especialistas, chefiados pelos cirurgiões Silvano Raia e Sérgio Mies, foi marcada por uma briga judicial na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), esta semana. Além disso, o hospital paulista corria o risco de perder o título de instituição filantrópica por não atender pacientes do SUS (veja notícia relacionada). O convênio com o SUS permite que sejam feitos 20 transplantes por mês no Einstein, uma média três vezes maior do que é feito atualmente no HC. Para abrigar a Unidade do Fígado, o hospital alugou uma casa na Avenida Brasil. O governo deverá cobrir todas as despesas, incluindo período pós-operatório e drogas imunossupressoras. Segundo o presidente do Einstein, Cláudio Lotterberg, a instituição não pretende atender "indiscriminadamente pelo SUS", mas tinha o interesse de dar cobertura para toda a sociedade em procedimentos de alta complexidade. "O paciente carente vai ficar no mesmo tipo de quarto em que fica um empresário," garante. O SUS paga cerca de R$ 56 mil por transplantado e o procedimento custaria R$ 250 mil se fosse pago por paciente particular."Fui proibido de entrar na faculdade onde trabalho há 30 anos", disse Mies, que até o mês passado era o chefe da Unidade do Fígado do HC. Recentemente, ele perdeu o concurso para professor titular de transplante de fígado na USP - o que lhe permitiria continuar no cargo - para o cirurgião Marcel Machado. "O Sérgio era meu legítimo sucessor. A nova equipe não tem registro no ministério para fazer transplantes de fígado no País", diz Raia, que foi chefe da unidade de 1970 até 2000. Ele acredita que o concurso foi marcado por disputas políticas na faculdade.Depois que resolveu sair do HC, Mies começou a fazer cópias dos prontuários dos pacientes, cerca de 1.200 pessoas, entre integrantes da fila para transplantes e transplantados. "Não são os prontuários oficiais do HC e sim os que fizemos exclusivamente para a faculdade", diz Mies. Eles têm todo o histórico do paciente e portanto seriam imprescindíveis para que a equipe continuasse fazendo transplantes em outro lugar.Mas, segundo Mies, a faculdade o impediu de continuar fazendo as cópias e de tirar qualquer material de dentro do prédio. Na quarta-feira, o cirurgião ganhou na Justiça o direito de ficar com os originais dos prontuários. A liminar determinava ainda que a faculdade deveria fazer as cópias em 48 horas. "Isso garante que o paciente possa escolher a equipe que fará o seu transplante, já que as duas terão o seu prontuário", diz Raia. Mas, no início da noite desta sexta-feira a liminar foi revogada a pedido da Faculdade de Medicina e os prontuários voltaram para as mãos da instituição. Mies e Raia ganharam o direito de ficar com as cópias."Tudo isso foi um grande mal-entendido", disse o vice-diretor da faculdade, Eduardo Massadi. "É o paciente que precisa manifestar sua intenção de tirar seu prontuário da instituição."A batalha dos prontuários tem como motivo a fila única para transplante de fígado no Estado de São Paulo, que tem hoje 1.700 pessoas. Segundo o coordenador da Central de Transplantes da Secretaria da Saúde, Luiz Augusto Pereira, cerca de 600 delas foram cadastradas como pacientes da equipe de Mies. "Não há qualquer vínculo da equipe com a instituição e por isso o transplante pode ser feito em qualquer um dos hospitais credenciados", disse.Se todos os pacientes de Mies resolverem continuar com ele no Einstein, a nova equipe do HC não teria a quem transplantar, já que ainda não cadastrou ninguém na lista. Atualmente, se o nome de um paciente fosse colocado na fila hoje sua cirurgia só seria feita em um prazo médio de dois anos.

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