Eduardo Paes usa no Rio ''cérebros paulistas''

Prefeito carioca cria ''usina de ideias'' com jovens do setor privado e busca soluções diferenciadas

Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

14 de julho de 2009 | 00h00

O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), está importando cérebros de São Paulo para traçar estratégias para a administração. Quando precisa formatar projetos ou encontrar inovações para reorganizar órgãos da prefeitura, logo decreta: "Quero um ?japonês? na reunião!" Convoca-se um dos três jovens paulistas de origem oriental, coisa rara entre os cariocas, que integram uma espécie de usina de ideias na Casa Civil. A missão deles é ouvir os problemas, seja de que área for, e bolar soluções. Fábio Sakamoto, de 29 anos, Paulo Andrade e Fabiano Tiba, de 27, são um retrato do investimento de Paes em uma nova geração de gestores oriundos da iniciativa privada com formação multidisciplinar, que está mudando a cara da administração municipal carioca. Há dois meses, a administradora Renata Maragno, de 30 anos, trocou São Carlos (SP) pelo Rio para reforçar o time.Em meio a uma equipe de 20 pessoas, cuja faixa etária vai dos 22 aos 45 anos, eles arregaçaram as mangas e já marcaram gols como parcerias com a iniciativa privada, projetos como a revitalização do Porto, o remodelo da companhia de limpeza, a unificação de ouvidorias, metas para a educação. Em agosto, finalizam um ambicioso plano estratégico, com metas para o Rio até 2020. Lançados em áreas estratégicas para Paes, da saúde ao transporte, eles avaliam o cenário, organizam ideias dos servidores, cotejam experiências similares, identificam oportunidades e apresentam um plano da ação. "Nosso papel é estrutural. Ajudamos o gestor a organizar e concretizar o que está na cabeça deles", resume Tiba, engenheiro de computação com mestrado no Canadá. "O prefeito não abre mão de um japonês nas reuniões. E cada um aqui quer ter o seu", conta o secretário-chefe da Casa Civil, Pedro Paulo Carvalho, que mantém Andrade sempre por perto. "Cada um tem seu tamagochi. O meu ?japonês? é melhor que o dos outros", provoca o subsecretário, Marcelo Falhauber, que tem Tiba como assistente. Para as missões, Carvalho exige que os "japas" se apresentem de terno. "Com essa cara de jogadores de videogame, ninguém dá crédito, né?" Na sala onde instalou o cérebro da prefeitura, Paes une jovens qualificados do setor privado com técnicos experientes do quadro da prefeitura para acelerar resultados. O modelo é parecido com o do primeiro mandato do ex-prefeito Cesar Maia (1993-1996), que projetou novos políticos como o próprio Paes e executivos como Maria Sílvia Bastos Marques, que dirigiu companhias como CSN e Icatu depois de passar pela Secretaria de Fazenda. Com o limite salarial do setor público, que a iniciativa privada não tem, a experiência na gestão pública é o que atrai os jovens executivos para a prefeitura. O canto da sereia de Carvalho é a promessa de que pretende formar uma vitrine exemplar de gestores e projetos bem-sucedidos. "Eles estão aprendendo aqui numa área que está crescendo no mundo inteiro." EMPREGO NA HORADe olho no crescimento dos países em desenvolvimento, Sakamoto decidiu, em passagens profissionais em Hong Kong, Cingapura e Moçambique, direcionar sua carreira para a gestão pública. "Profissionais com essa experiência serão cada vez mais atraentes. Não fechamos a porta do setor privado. Todo mundo aqui, pela qualificação, consegue emprego na hora. É um risco que dá para assumir", diz Sakamoto, formado em administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).Para Andrade, eles e a prefeitura ganham. "O setor público não busca o lucro, mas o que a gente traz da iniciativa privada é o foco em resultado", diz o engenheiro químico da USP, com MBA da FGV. "O que mais me atraiu foi o impacto que poderíamos causar para a população. Ao contrário do que esperava, encontramos aqui a mesma energia para fazer as coisas acontecerem. Estamos muito perto do prefeito para levar as ideias", empolga-se Tiba, que não fica chateado com apelidos que os chefes criam. "Trabalhar com carioca é diferente. Há uma descontração que dá mais leveza ao trabalho." O clima não significa que prevaleça a imagem de que cariocas gostam menos de trabalho do que os paulistas. O próprio prefeito carioca dá o tom: madruga no gabinete e é dos últimos a sair. E todo mundo segue o ritmo. Por outro lado, viver no Rio alivia o estresse crônico dos workaholics de São Paulo. Instalada em Copacabana, Renata aproveita a vista correndo no calçadão antes de ir para o trabalho. "Tinha acabado de sair do mestrado na USP quando recebi o convite. Fiquei empolgada com os projetos, mas também pesou bastante a chance de morar no Rio. Não sabia que era tão bom morar perto do mar."Mais à vontade no perfil de carioca esportista, Sakamoto aproveita a natureza da cidade e ganha fôlego para a maratona de trabalho pedalando todas as manhãs da Gávea até a Vista Chinesa, na Floresta da Tijuca. E se empenha em desafiar o sedentário prefeito a acompanhá-lo. Já Andrade adora como os cariocas aproveitam a informalidade dos botecos para se reunir. Tiba estranha quando visita São Paulo: "Fico muito, muito estressado com o trânsito", queixa-se.

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