Eduardo Jorge defende quebra de sigilo de Mercadante

O ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo Jorge Caldas Pereira defendeu nesta segunda-feira que o deputado petista Aloizio Mercadante (SP) seja investigado pelo Ministério Público e tenha o sigilo bancário, telefônico e fiscal quebrado. O ex-assessor do presidente Fernando Henrique Cardoso quer que sejam apurados os motivos que levaram o parlamentar a orientar a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, a participar do consórcio que comprou a Vale do Rio Doce, em 1997. Ele chamou o parlamentar de "Aloizio Mercadejante".Eduardo Jorge disse ainda que é preciso investigar se Mercadante teve influência em outros negócios da Previ e se os integrantes do consórcio que comprou a Vale contribuíram para a campanha eleitoral do deputado e do PT. O parlamentar petista prometeu entrar com processo contra Eduardo Jorge, se julgar que as declarações "levantam qualquer suspeição contra a minha integridade e a minha honra." "O deputado Aloizio Mercadejante incorreu em um sério problema de conflito de interesses. O partido dele estava lutando nas ruas contra a privatização, entrando com ações, afugentando concorrentes e diminuindo o preço que estavam dispostos a pagar. Ao mesmo tempo, estimulava a Previ a entrar em um consórcio para beneficiar um amigo pessoal dele", disse Eduardo Jorge. Mercadante é amigo de Benjamin Steinbruch desde a juventude. Investigado durante mais de um ano por suspeita de tráfico de influência e suposta ligação com o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, Eduardo Jorge completou: "Ele (Mercadante) tem que ser investigado na mesma profundidade que eu fui, para que a opinião pública decida se ele fez por patriotismo ou interesse pessoal. (É preciso investigar) se as pessoas às quais ele beneficiou nas conversas dele na Previ contribuíram para as campanhas dele ou do PT."Sobre a quebra de sigilo, o deputado disse que não abrirá suas contas por causa da cobrança de Eduardo Jorge. "Conversei com o procurador Luiz Francisco e me coloquei à inteira disposição, assim como estou à disposição da comissão do Senado. Não presto contas a Eduardo Jorge, presto contas a instituições democráticas e jurídicas. Não há nenhuma suspeição contra mim. Ele é que tem que dar explicações sobre sua ligação com o (ex-juiz) Nicolau. Ele quer desviar o assunto do processo que ele tem no Ministério Público." O deputado disse que aconselhou a Previ a participar do consórcio do qual fazia parte Benjamin Steinbruch e que "faria de novo". "Sugeri como consultor econômico que deviam exigir participação na gestão da empresa e buscar um consórcio que não desnacionalizasse a Vale", lembrou Mercadante. A outra opção da Previ era associar-se ao grupo formado pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes e a companhia sul-africana Anglo America. "A previ já tinha 8,5% das ações ordinárias da Vale, o consórcio Votorantim-Anglo America não aceitava incorporar as ações, não aceitava gestão compartilhada. Acrescentei que era uma multinacional sul- africana que patrocinou apartheid." Mercadante assegurou que não teve nenhum tipo de participação na formação dos consórcios para privatização do sistema Telebrás, em 1998. "Nunca mais tive contado com a diretoria da Previ e nunca tive nenhuma participação no sistema Telebrás", declarou o parlamentar petista.Mercadante disse que quer ir ao Congresso prestar os esclarecimentos necessários sobre o episódio. "Estão fazendo cortina de fumaça para abafar se teve ou não pedido de propina, se foi paga ou não foi paga. Ou vai tudo para baixo do tapete?" O deputado referia-se à denúncia de que o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira teria cobrado propina de R$ 15 milhões de Steinbruch na época da venda da Vela. Ricardo Sérgio foi o caixa da campanha ao Senado de José Serra, candidato tucano à presidência da República.Segundo Eduardo Jorge, em agosto de 2000, quando ele prestou depoimento no Senado, disse aos parlamentares que "o PT controlava a Previ, através do Mercadante". O ex-assessor do presidente Fernando Henrique questionou a presença do PT na administração Previ. De seis integrantes da diretoria executiva, os três diretores eleitos (de Participações, de Planejamento e de Seguridade) são do PT. "Não sou contra os trabalhadores participarem, mas quem participa é o partido político. Na campanha deles, o partido e o próprio Lula se envolvem", diz.O diretor de Seguridade da Previ, Henrique Pizzolato, filiado ao PT desde a fundação do partido, há 22 anos, não fazia parte da direção na época da privatização da Vale, e nega que tenha recorrido à legenda, seja para ser eleito, seja para tomar decisões sobre investimentos posteriores do fundo de pensão. "Eu não pedi apoio a ninguém do PT. Nunca ninguém do partido me chamou para falar sobre nada. Nem eu fui pedir autorização para nada. Se acontecer de haver divergência entre o interesse a posição dos funcionários do banco e o PT, fico com os funcionários do banco."Indicação tucanaA revista Veja de 1o de maio trouxe na capa a denúncia de que o ex-diretor de da área internacional e comercial do Banco do Brasil Ricardo Sérgio, ex-caixa das campanhas do tucano José Serra ao Senado em 1994 e do presidente Fernando Henrique Cardoso em 1994 e em 1998, interferiu na formação do consórcio vencedor da privatização da Vale, a pedido do Planalto que esperava ter ágio na venda da estatal, e, por esse serviço, pediu uma propina de 15 milhões de reais ao líder do grupo, o empresário Benjamin Steinbruch, segundo a revista. Ricardo Sérgio foi indicado para a diretoria do BB pelo ex-ministro da Casa Civil, Clóvis Carvalho. A escolha, segundo a revista foi endossada por Serra.

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