Economista propõe combate sustentável à pobreza

O economista Marcelo Neri apresentou nesta terça-feira o trabalho "Combate Sustentável à Pobreza", no Rio, no qual sugere ao governo e à sociedade novas formas de combate à miséria no País. Chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Neri afirma que o Brasil gasta 21% do PIB na área social, mas o dinheiro não "chega aos pobres". "Não faltam recursos, a questão é a qualidade do gasto", afirma.Para o economista, as atuais políticas sociais de erradicação da pobreza não provocam mudanças estruturais na vida dos miseráveis, exceto o bolsa-escola, que considera um bom projeto do governo federal. Neri acredita que o fim da miséria só será uma realidade se for resultado de políticas sociais duradouras - ou de "sustentabilidade" - , que possam gerar renda aos pobres.50 milhões de indigentesEntre elas sugere uma espécie de transferência de recursos para os miseráveis, investimento no pequeno produtor, em material humano, em saúde e educação. O pesquisador da FGV usa como exemplo os dados do Mapa do Fim da Fome, produzido por ele em julho passado, e que aponta a existência de 50 milhões de indigentes no Brasil, a partir de uma linha de pobreza estabelecida em R$ 80 - suficiente para cobrir as despesas com alimentação de um miserável em São Paulo. O Mapa mostra que os 119 milhões de brasileiros acima da linha da pobreza deveriam pagar R$ 15 por mês, em média, para erradicar a miséria.Neri sugere, no entanto, que a transferência de dinheiro dos mais ricos seja feita por atos que possam gerar riqueza permanente para os mais necessitados, não por meio de um pagamento mensal, que pode ser interrompido a qualquer hora.Computador usado"Quanto mais alto o retorno do capital transferido, menor seria o montante de capital transferido. Por exemplo, se o rico se decidisse por abrir uma caderneta de poupança, que é o investimento mais conservador do mercado, com uma taxa de juros de 0,5% ao mês, ele teria que investir R$ 3 mil para produzir os R$ 15 com fluxo permanente", exemplifica. "Se a taxa de retorno do ativo fosse de 2% ao mês, como é o caso de algumas linhas de microcréditos, a transferência média de capital paga ao miserável cairia para R$ 750, o preço de um computador usado."Marcelo Neri faz uma análise histórica das políticas sociais adotadas no País desde os anos 60, mostrando que nunca houve preocupação com o investimento no capital humano, principalmente em educação e saúde. "O Estado sempre incentivou o capital físico, indústrias, o grande setor produtivo", critica. Para ele, o foco do desenvolvimento econômico deve estar centrado no pequeno produtor.AutônomosSegundo o pesquisador, 58% das famílias pobres são chefiadas por trabalhadores autônomos, empregados informais ou se remuneração. "O grande bolsão de miséria em termos de mercado de trabalho são os pequenos produtores", disse. O economista propõe ainda a premiação a posteriori, com verbas adicionais do governo federal, de municípios que apresentem os melhores avanços nos indicadores sociais, além da regularização fundiária, como forma de dar garantias aos pobres na aquisição de microcréditos para tornar viáveis pequenos negócios e gerar renda.EducaçãoO investimento na educação também é defendido por Marcelo Neri como saída para melhorar as condições de vidas dos miseráveis. E para isso ele cita números. O economista conta que a cada ano adicional de estudo a renda do trabalho aumenta, em média, 16% ao longo da vida. "Isto é, se a renda de um analfabeto é de R$ 100, esta será de R$ 116 se este analfabeto acumular um ano de estudo e assim por diante", afirmou. A taxa de ocupação também cresce com a escolaridade - 52% dos analfabetos estão ocupados contra 87%, dos trabalhadores com nível superior completo.Neri, porém, lembra que os investimentos em educação são crescentes, mas demorados, o que influencia na decisão dos mais pobres em sair das salas de aula numa situação extrema, como a perda do emprego do chefe da família.Criança"O bolsa-escola, neste sentido, é um projeto muito bom, porque ele ataca o problema imediato, a falta de recursos, e, ao mesmo tempo, produz um capital humano que será sentido pela criança ao longo dos anos", ressalta. E são, justamente, as crianças as mais afetadas pela pobreza.Segundo o pesquisador da FGV, 45% dos miseráveis brasileiros têm menos de 15 anos. Isso se explica, na opinião de Neri, pela ausência de representatividade política das crianças. "Criança não vota, mas você pode dizer que a mãe dela vota. O problema é que existe uma mãe, com vários filhos, com direito a apenas um voto. Ou seja: 45% dos 50 milhões de miseráveis não são eleitores."

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