Arquivo pessoal
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Economista do PT quer maior intervenção do governo sobre bancos privados

Juliane Furno faz parte da equipe de economistas que prepara programa de Lula

Lauriberto Pompeu e Júlia Affonso, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 18h45

BRASÍLIA — Recém-integrada ao grupo do PT que prepara um programa econômico para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a economista Juliane Furno afirmou ter como "sonho" o controle da conta de capitais do sistema financeiro. A ideia, segundo Furno, não passa por estatizar as instituições, mas, sim, por aumentar a influência e fiscalização do Estado nas atividades bancárias.

A discussão foi provocada nesta terça-feira, 22, quando ela postou uma mensagem no Twitter dizendo estar “muito feliz” por ser mais uma das jovens a compor a equipe que elabora o programa econômico de Lula. Um usuário do Twitter pediu, então, para a economista "elaborar o controle da conta de capitais e a estatização do Itaú e Bradesco". Ao que ela respondeu: "Meu sonho!".

Ao Estadão, Furno reiterou o desejo de aumentar a interferência estatal, mas negou que, para isso, queira que os grupos sejam estatizados. "A regulação do sistema financeiro e a sua submissão aos interesses da sociedade, do financiamento e do desenvolvimento, são as coisas mais importantes. Isso deve ser feito convivendo com bancos comerciais privados, sem estatizá-los", disse. Para a economista, a proposta não significa uma interferência no fluxo individual dos bancos, mas, sim, no conjunto do sistema financeiro, na entrada e saída de dólar da economia brasileira.

Um dos objetivos, de acordo com ela, é evitar que bancos privados tenham influência indevida sobre o Banco Central. A economista citou o exemplo recente uma gravação, na qual o empresário André Esteves, do BTG, demonstra ter proximidade com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

O PT tem um grupo de aproximadamente 90 economistas, que receberam a missão de sintetizar um documento que servirá de ponto de partida para a construção do programa de governo de Lula na área. A equipe é coordenada pela Fundação Perseu Abramo, braço de formação ideológica do partido. Tem como principais líderes o ex-ministro Aloizio Mercadante, presidente da fundação, e o economista Guilherme Mello.

Assim como a maior parte dos integrantes, Furno tem origem acadêmica na Universidade de Campinas (Unicamp), onde fez doutorado em desenvolvimento econômico. Ela também é economista-chefe do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE).

Perguntado pelo Estadão sobre a possibilidade de o PT discutir estatizar os bancos, o economista Guilherme Mello negou qualquer tipo de análise nesse sentido e minimizou a postagem na rede social. "Não é considerada, nunca discutimos isso. Parece que foi uma brincadeira de Twitter", afirmou.

Como mostrou o Estadão, Lula procura um perfil político para chefiar o Ministério da Economia, caso seja eleito. O ex-presidente e o partido têm evitado falar em nomes para o posto, mas já disseram diversas vezes como pretendem que seja a atuação na área. A ideia é fazer uma espécie de "revogaço" e anular medidas de ajuste fiscal, como o teto de gastos, a reforma trabalhista e a privatização da Eletrobrás.

A economia é um tema sensível para a pré-campanha petista e tem sido umas das principais munições de ataques de adversários, como o presidente Jair Bolsonaro (PL), o ex-ministro Sérgio Moro (Podemos) e o ex-governador Ciro Gomes (PDT). Ao final do governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o País vivia índices recordes de inflação e desemprego.

Ministro da Fazenda por oito anos, durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, Guido Mantega admitiu, em entrevista à Bloomberg, que cometeu erros e citou a política de intervenção no setor energético.

No segundo mandato de Dilma, em uma tentativa de correção de rumos, o PT tentou aplicar uma agenda de ajuste fiscal e menos intervenção na economia com a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda. Mas Levy foi alvo de constantes críticas no PT e teve pouco respaldo no Congresso. 

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