Economia domina roteiro presidencial

Em cenário eleitoral ainda incerto, postulantes ao Planalto privilegiam encontros corporativos na tentativa de viabilizar suas candidaturas

Adriana Ferraz, Ana Neira e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2018 | 05h00

Nos primeiros 50 dias da pré-campanha presidencial, a maioria dos postulantes ao Planalto privilegia encontros políticos e eventos organizados por empresários em suas agendas de viagens pelo País. Diante de um cenário ainda incerto sobre a viabilidade das candidaturas e da escassez de recursos para custear longas caravanas, os presidenciáveis, por enquanto, têm pautado seus roteiros de acordo com convites corporativos que recebem dos mais diversos setores da economia para debater o Brasil.

++ AO VIVO: Acompanhe em tempo real a greve dos caminhoneiros

Levantamento feito pelo Estado com base nas agendas oficiais de cada um mostra que esse tem sido o roteiro de Henrique Meirelles (MDB), Geraldo Alckmin (PSDB), Rodrigo Maia (DEM), Alvaro Dias (Podemos), Flávio Rocha (PRB), João Amoêdo (Novo) e Ciro Gomes (PDT), o único representante de um partido de centro-esquerda nessa lista. A vantagem é que esse tipo de evento permite ao pré-candidato expor suas propostas e, ao mesmo tempo, receber as demandas de cada setor.

Da lista dos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto, Jair Bolsonaro (PSL), avesso a sabatinas ou debates, e Marina Silva (Rede) são as exceções. Em suas viagens, o parlamentar opta por participar de encontros menores – organizados por simpatizantes e, mais recentemente, também por empresários e representantes do mercado financeiro – e por atender seu eleitorado ao prestigiar cerimônias militares e eventos ligados ao agronegócio, onde tem aumentado sua influência.

++Greve dos caminhoneiros: nºde protestos registrados pelo País sobe neste sábado, diz PRF

Já a ex-ministra mescla sua presença em eventos promovidos por empresários e por setores como universidades, cooperativas e comunidades religiosas, em roteiros semelhantes aos cumpridos por Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL). Pelas características de suas pré-candidaturas – situadas no campo da esquerda –, tanto Manuela como Boulos privilegiam também rodas de conversa e encontros com representantes de movimentos sociais.

++ 28 cidades de São Paulo estão em estado de emergência após greve dos caminhoneiros

Desde 7 de abril, data-limite para filiação partidária, que marca o início da pré-campanha, os presidenciáveis mais citados nas pesquisas já participaram de 250 compromissos. Juntos, rodaram 24 Estados e o Distrito Federal – só Tocantins e Rondônia ficaram de fora. Sul e Sudeste foram as regiões mais contempladas.

Na avaliação do cientista político Felipe Borba, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), é esperado que os pré-candidatos priorizem eventos corporativos nesta fase, para evitar uma “campanha corpo a corpo” que pareça propaganda antecipada. Os encontros com setores do empresariado ainda ajudam a fortalecer e dar credibilidade ao projeto político de cada um.

“Eles precisam de exposição e uma agenda muito intensa para ter o nome conhecido”, disse Borba, ressaltando que, neste ano, o horário eleitoral em rádio e televisão terá apenas 35 dias – dez a menos que em 2014.

Com a pulverização de pré-candidaturas nesta eleição e a disputa por décimos porcentuais nas pesquisas de intenção de voto, quem se movimenta mais tem mais chance de assegurar a candidatura ou ao menos uma vaga de vice. É no que apostam, por exemplo, Flávio Rocha e Alvaro Dias.

“Minha candidatura tem menor visibilidade, então, preciso viajar mais para atingir um número maior de pessoas. Tanto que definimos agenda também em função do alcance do evento proposto”, afirmou o pré-candidato do Podemos.

Nordeste. Qualificado como reduto petista, o Nordeste foi o terceiro destino mais procurado pelos pré-candidatos. Dona de 38,8 milhões de eleitores, ou 26,5% do total, a região já foi visitada ao menos uma vez pelos principais presidenciáveis. Henrique Meirelles esteve ontem pela primeira vez na região, para participar de um evento da Assembleia de Deus em Natal.

Diante do provável veto da Justiça à candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Operação Lava Jato, o eleitor nordestino começa aos poucos a ser mais cortejado pelos presidenciáveis, de direita ou esquerda. 

Neste mês, Bolsonaro, por exemplo, visitou Natal e Salvador em um intervalo de uma semana. Boulos passou por Aracaju, Maceió e Recife em três dias, e Flávio Rocha já foi a Salvador, João Pessoa, Teresina e Fortaleza desde o dia 3.

Único postulante ao Planalto que acumula o cargo de presidente nacional de seu partido, Alckmin já esteve em São Luis e Teresina, mas tem priorizado mesmo, em função dos compromissos políticos, a capital do País. O tucano esteve em Brasília sete vezes desde que deixou o cargo de governador de São Paulo, em 6 de abril, e iniciou sua pré-campanha. 

Além de aceitar convites para eventos corporativos, Alckmin dedica parte de sua agenda a encontros partidários e à “escalação” de especialistas renomados para respaldarem suas propostas de governo. Coordenador-geral da campanha de Alckmin, Luiz Felipe d’Ávila afirmou que os eventos de lançamento dos integrantes do plano ajudam a “ocupar” espaço no noticiário político, além de combater “fofocas” nesta fase de pré-campanha, em que é proibido pedir votos.


2 Perguntas para...

Humberto Dantas, cientista político

Levantamento do 'Estado' indica que os presidenciáveis com menor expressão e conhecimento do eleitorado são os que mais viajam. O que isso significa?

Os pequenos precisam andar mais para se tornar conhecidos porque, lá na frente, não terão nenhuma estrutura de lógica partidária. Além disso, eles não precisam se preocupar tanto com os acordos estaduais que já estão sendo costurados e podem colocar os grandes partidos em “saias-justas” estaduais.

Pode-se dizer que os pré-candidatos buscam valorizar suas candidaturas para alcançar objetivos futuros na campanha?

Quanto mais os pré-candidatos se valorizam, mais chances têm de atrair recursos e fechar alianças. Se algum deles começar a subir, pode se alavancar a ponto de ser envolvido em outras campanhas, ser absorvido por elas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.