Ecologista dinamarquês contesta temores ecológicos

Dentro de dois meses será realizada a cimeira mundial sobre desenvolvimento sustentável em Joanesburgo. Esse mega evento, organizado pela ONU, e que terá mais de 40 mil participantes, deveria finalmente implementar as decisões tomadas na Cimeira da Terra que se reuniu no Rio de Janeiro, em junho de 1992.Em todos os países, governantes e ecologistas preparam febrilmente o encontro. Existe, em geral, um consenso sobre o fato de que a terra, a natureza, estão ameaçadas - 70% da natureza estará destruída em 2032, diz um relatório da ONU.Mas eis que essas previsões catastróficas são violentamente contestadas por um economista dinamarquês, dando origem a um debate que inflama tanto os governos quanto os naturalistas. Esse debate atinge hoje a França. São as primeiras escaramuças.A tese de Bjorn Lomborg é categórica: "Não. O planeta não caminha para um desastre. As previsões apocalípticas são muito exageradas". Essa tese não é nova. Ela floresce principalmente nos Estados Unidos, pois serve de justificativa para Bush que, submisso às pressões de seus industriais, reluta em aderir à luta mundial contra a poluição.Mas justamente o que chama em primeiro lugar a atenção nos textos de Bjorn Lomborg é que esse homem não parece ser um "comparsa" de Bush. Pelo contrário, ele é (ou diz que é) "de esquerda". Pertenceu ao Greenpeace e não renega sua atuação. Afirma ser um ecologista.Trata-se, porém, de um ecologista estranho, empenhado em destruir um a um os temores dos outros ecologistas. Ridiculariza os avisos dos veteranos, como Lester Brown do World Watch Institut, e, principalmente, como Paul Ehrlich, que predizia que em 1968 que centenas de milhões de pessoas iriam morrer de fome em um mundo devastado por uma demografia delirante.Em relação a esses dois pontos - demografia e fome - Lomborg demonstra o contrário: a demografia possui seu próprio mecanismo de auto-regulação que reduz o número de nascimentos à medida que o nível de vida aumenta. A taxa de crescimento da população humana era de mais de 2% no início da década de 60. Ela será de 0,6% em 2050.Essa desaceleração explica o fato de os homens comerem melhor do que há quarenta anos. Segundo o dinamarquês, a produção agrícola aumentou em 52% por pessoa desde 1960. E o aporte calórico diário passou de 1932 calorias em 1960 para 2650 calorias em nossos dias. Ela poderá ser de 3020 em 2030.A biodiversidade está ameaçada principalmente pelo desflorestamento. Mais uma vez o dinamarquês berra "falso". Primeiramente, ele afirma que a redução das florestas não é de 2 a 4% por ano, como dizem os ecologistas, mas de apenas 0,5%. E sobretudo, ele nega que a devastação das florestas (apesar de tudo incontestável) destrua a biodiversidade.Argumenta que nos Estados Unidos, onde as florestas estão reduzidas a 1% ou 2% em relação ao que eram há um século, só foi notado o desaparecimento de uma única espécie de pássaros.Cita um exemplo tirado do Brasil. No século XIX, diz, as florestas tropicais da costa atlântica foram dizimadas. Só restam 12%, distribuídos em grupos esparsos. Escutemos o dinamarquês: "Segundo a regra utilizada pelos ecologistas, a metade das espécies deveria estar extinta. No entanto, quando a União Mundial pela Conservação da Natureza (UICN) e a Sociedade Brasileira de Zoologia, fizeram o recenseamento das 291 espécies conhecidas, nenhuma delas havia desaparecido. Podemos concluir com isso que as espécies são muito mais resistentes do que se imagina".Em sua fúria de contradizer, o dinamarquês se recusa a acreditar que estamos condenados à névoa e praticamente à noite de um céu poluído e esfumaçado. "A poluição do ar diminui a partir do momento em que uma sociedade se torna suficientemente rica para se preocupar com o meio ambiente. No caso de Londres, a poluição atingiu seu ápice por volta de 1890. Atualmente, o ar nunca esteve mais puro e é preciso recuar até 1585 para encontrar uma qualidade de ar semelhante. Esse fenômeno pode ser generalizado para todos os países desenvolvidos".E o aquecimento da atmosfera terrestre? Bjorn Lomborg não o nega completamente, mas sua resposta está sempre na ponta da língua: isso é muito bom. Reduz as despesas com a calefação. E o desaparecimento das geleiras diminuirá as enchentes provocadas pelo degelo.Nós nos limitamos aqui a resumir as teses do economista dinamarquês. Não procuramos criticá-las, deixando essa eventual tarefa para os cientistas. Um fato, porém, é incontestável: que as opiniões de Lomborg sejam verdadeiras ou falsas, exageradas ou razoáveis, merecem ser examinadas. Elas deveriam, até a cimeira de Joanesburgo, alimentar um debate apaixonado sobre os perigos reais, exagerados ou imaginários, que corre nosso planeta.

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