É útil para o País tratar da história recente?

Debate

O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2029 | 00h00

NÃO:Luiz Gonzaga Lessa *O governo federal lança hoje, em Brasília, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o livro Direito à Memória e à Verdade - que é um amplo levantamento com perfis de mortos e desaparecidos políticos nos anos do regime militar. Como o senhor vê o lançamento da obra?Não vejo nenhuma utilidade e considero chocante o patrocínio da Presidência da República a esse procedimento.Por quê?É uma publicação que não constrói nada, não olha para a frente. Nós vivemos um período no qual devemos nos preocupar em olhar para a frente, em busca da unidade e do entendimento nacional - em vez de ficarmos continuamente olhando para trás, remexendo o passado. A Lei da Anistia veio para os dois lados envolvidos nos episódios daqueles anos. Mas tem um lado que parece não querer entender a anistia dessa maneira.O senhor se refere aos familiares dos mortos e desaparecidos naquele período?Falo do lado que conduziu o movimento subversivo, as ações revolucionárias, os atentados. Esse lado tem todos as benesses da anistia, mas parece que nunca a aceita. Eles montaram uma verdadeira indústria de indenizações, com valores milionários. Pessoas que tiveram pouquíssima influência naquelas ações do passado se aproveitaram dessa situação para obter grandes indenizações.Familiares de mortos e desaparecidos insistem em que as Forças Armadas sonegam até hoje informações sobre como e onde eles morreram.Os fatos já estão esclarecidos. Estão todos aí. Tudo que a Força sabia foi liberado. Tanto é verdade que as famílias estão recebendo indenizações com base nessas informações. Podem estar reclamando sobre o que ocorreu no Araguaia, mas aí não existem mais as informações.O choque que o senhor sente ao ver o presidente participar do lançamento é sentido também entre os militares da ativa?Acho que isso causa amargura em toda a Força - e não me refiro só à reserva. Eu escuto meus companheiros, sei dos seus sentimentos e sei que há um sentimento de amargura geral.Por quê?Porque fica claro para todos nós que existe um grupo de brasileiros que até hoje não aceitou a Lei da Anistia, que só quer tirar vantagem desse processo, que não quer a paz nacional para o Brasil. Como já disse, há uma imperiosa necessidade de todos nós olharmos para a frente - e não ficar remexendo em coisas que não vão levar a lugar nenhum. O risco disso tudo é apenas desencadear mais ódio entre brasileiros, mais indignação. * Luiz Gonzaga Lessa é general da reserva, ex-presidente do Clube Militar e ex-comandante militar da AmazôniaSIM:Maria Amélia de Almeida Telles *O anúncio do lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade, previsto para hoje, tem causado irritação entre setores das Forças Armadas - que preferem não ficar remexendo em episódios envolvendo mortos e desaparecidos políticos. Na sua opinião, qual a importância desse lançamento?Ele representa o reconhecimento oficial da história a respeito da participação dessas pessoas na luta de resistência à ditadura militar. Serve para trazer a público, apresentar à sociedade brasileira quem foram essas pessoas que lutaram, quais eram os seus ideais e como viveram. Eram pessoas compromissadas com a democracia, com a história deste país.É também uma contribuição para o esclarecimento do que foram aqueles anos?Sem dúvida. Atualmente, quando se fala em ditadura na América Latina, muita gente pensa na Argentina, no Uruguai, no Chile, mas esquece do Brasil. É preciso lembrar sempre que houve ditadura por aqui e que ela teve conseqüências sérias e graves. O livro é uma espécie de reencontro com a história.Ele é útil ao conjunto da sociedade, ou serve apenas aos familiares?Trata-se da história do povo brasileiro que está sendo contada para o povo. Dizer que essas pessoas que lutaram pela democracia tinham rosto, história, biografia é importante para a sociedade. Ajuda a elevar a auto-estima e a dignidade do povo.Os militares dizem que não existem mais novidades sobre esses assuntos, que tudo já foi contado e recontado.Pode ser que para eles não exista nenhuma novidade - porque eles têm muito mais informações do que nós, que ainda lutamos pela abertura dos arquivos militares, dentro do Movimento Desarquivando o Brasil. Para nós e o conjunto da sociedade, o livro, com nomes, fotos, histórias, todos os indícios possíveis até agora, podem contribuir na busca pelos corpos. Esse também é um dos seus objetivos.Também se diz que o livro serve para alimentar uma indústria milionária de indenizações pagas aos familiares de desaparecidos.É uma bobagem. O livro não vai modificar nada. Os familiares de todas as pessoas mencionadas no livro já receberam indenizações, quase simbólicas, diga-se de passagem, há muito. Esse é um argumento totalmente descabido.É provável que nenhum representante militar participe do lançamento do livro, em Brasília. O que você acha disso?É lamentável eles não estarem presentes, porque são os que têm mais condições de dizer a verdade, que, apesar de todos os esforços feitos pelos familiares, ainda não está inteiramente contada no livro. * Maria Amélia de Almeida Telles, a Amelinha, integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.