'É uma candidatura do presidente e do vice-presidente'

Temer afirma que a aliança do PT com o PMDB é 'político-eleitoral programática': o partido exigirá participação ativa no núcleo que decidirá os rumos e estratégias de campanha

Malu Delgado / SÃO PAULO - O Estado de S.Paulo

26 Maio 2010 | 23h55

Cerca de 12 pessoas o aguardam no escritório em Alto de Pinheiros, região nobre de São Paulo, sinal de que já são intensas as conversas políticas que antecedem a campanha presidencial. Depois de mais de duas décadas de mandato parlamentar e há oito anos no comando do PMDB, Michel Temer ocupará o posto de vice-presidente na chapa com Dilma Rousseff (PT).

 

Ouça a íntegra da entrevista com Michel Temer (parte 1)

Ouça a íntegra da entrevista com Michel Temer (parte 2)

 

Seu nome precisa ser referendado na convenção de 12 de junho, mas, a despeito dos dissidentes, Temer não coloca em dúvida sua indicação. Em entrevista ao Estado, diz que o PMDB fará parte do núcleo de campanha e avisa que tudo, incluindo a presença do presidente Lula nos palanques, terá de ser negociado com "os companheiros do PT".

 

"É uma candidatura do presidente e do vice-presidente. Portanto, vamos integrar todos um núcleo só de campanha", diz. A aliança, insiste ele, é político-eleitoral programática. Entre as propostas de governo que o PMDB levará a Dilma, antecipa duas: o "ProUni" para o ensino médio e fundamental (abertura de vagas em escolas privadas para carentes) e pagamento de poupança a beneficiários do Bolsa-Família a ser sacada ao fim do ensino médio.

 

Em 2002 o PMDB estava na aliança com José Serra. Em 2006, não apoiou ninguém. Agora, se alia ao PT. O que levou o PMDB a migrar do PSDB ao PT?

O PMDB sempre teve personalidade própria. Foi o maior partido da Câmara e do Senado e, portanto, sem o apoio congressual dificilmente se chegaria ao controle da inflação com o Plano Real. Grandes projetos sociais do governo Lula tiveram apoio do PMDB. Apoiamos a candidatura de Serra lá atrás e, agora, estamos ligados ao PT. O que aconteceu? Naquela época, o PMDB estava no governo e eu disse: olha, se não sairmos do governo até abril não teremos mais o direito de sair para lançarmos outro candidato. Em outubro (de 2009) eu disse: a Dilma precisa dizer se é candidata e o PT precisa dizer se quer aliança com o PMDB. Na sequência, a Dilma nos chamou, o presidente Lula chamou. Fizemos um pré-compromisso escrito: a vice seria do PMDB, que participaria do programa de governo e do plano de campanha. A aliança está se consolidando, na medida em que vão se resolvendo os problemas nos Estados.

 

Terá problema na convenção nacional?

Conseguimos unidade muito grande do PMDB. Suponho que na convenção para a decretação da aliança (com o PT) essa unidade se manterá intacta.

 

O ex-governador Orestes Quércia deve questionar sua indicação. A dissidência paulista do PMDB pode ser minimizada?

A minimização dessa dissidência se dá pelo fato de vários prefeitos do PMDB (de São Paulo) já terem me procurado para manifestar apoio.

 

O sr. mencionou que há questões pendentes entre PT e PMDB nos Estados.

No Pará as coisas estão bem encaminhadas, seja para uma candidatura a governador (de Jader Barbalho), ou para uma aliança (com Ana Júlia, do PT). Em Minas, a ideia é ter palanque único com a candidatura do Hélio Costa.

 

E São Paulo? O PT diz que o PMDB faz cobranças, mas o Quércia apoiará Serra.

Vamos tentar, aqui, obter o maior número de votos. Tenho companheiros do PMDB que vão me ajudar na tarefa, evidentemente com os constrangimentos que isso pode causar. Poderemos conseguir mais votos do que a Dilma teria se não houvesse um vice do PMDB.

 

O Diretório do PT pode decretar intervenção nos Estados em nome da aliança nacional. Isso pode ocorrer no PMDB?

Sempre tivemos sucesso com o diálogo com as várias facções. Nunca se cogitou isso.

 

Dilma estará em 2 palanques? E o presidente Lula. O que o PMDB espera?

Que haja um tratamento igualitário entre os candidatos que dão palanque a Dilma. Tudo será dialogado. O PMDB fará parte do núcleo da campanha, tem um programa de governo. Estamos fazendo uma coalizão político-eleitoral programática. Os partidos vão trabalhar juntos durante a campanha, deverão ganhar juntos e governar juntos.

 

O PT já divulgou diretrizes programáticas. Entre as sugestões do PMDB, o que haveria de novidade?

Posso antecipar duas coisas que me pareceram muito originais. Uma é a questão do Bolsa-Família. Estamos propondo uma espécie de poupança para as crianças do programa, que poderiam ser sacadas logo após ao término do ensino médio ou do ensino fundamental. Aliás, antigamente eu me lembro que os pais faziam poupança para o filho na Caixa Econômica Federal e ele retirava quando se formava. É um primeiro passo, né. A outra (proposta) é discutir a extensão do ProUni para o ensino médio e o fundamental. O governo, de qualquer maneira, abriu vários milhões de empregos. Agora é preciso abrir empregos para esse pessoal que teve a ascensão social. É a sequência natural do Bolsa-Família.

 

Como será a atuação do PMDB no núcleo de campanha? É o sr. que conduzirá isso pessoalmente?

Eu e mais alguns do PMDB. Na verdade, é uma candidatura do presidente e do vice-presidente. Portanto, vamos integrar todos um núcleo só de campanha. Os companheiros do PT já falaram sobre isso. Não será apenas do PT e do PMDB, mas de todos os partidos da aliança.

 

O ex-ministro Ciro Gomes critica a aliança PT- PMDB, e se referiu ao partido do sr. como um "roçado de escândalos", Que respostas o sr. daria?

Deu no que deu, né. Cada um tem o seu estilo. O do Ciro é mais desabrido. É claro que ele talvez tenha ficado abalado com todos esses fatos. Não fossem essas palavras exageradas acho que ele teria grande desempenho no país. Não acho que ele é uma peça a ser descartada. Ao contrário. É uma peça a ser aproveitada.

 

O que o sr. acha da chapa Serra-Aécio? PT e PMDB a temem?

Sou muito amigo do Aécio, amigo pra valer. Se ele fosse o vice eu teria certeza do nível elevadíssimo da campanha, assim como tenho a certeza de que Serra e Dilma levarão para o mesmo tom. Prefiro não dizer nada a respeito. Não há o que temer.

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