Wilson Pedrosa/AE
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'É um crime o que estão fazendo com o PMDB', diz Pedro Simon

Para o senador, cúpula do partido se deixou cooptar por 'vantagenzinhas' e 'favorzinhos'

Daniel Jelin, do Estadao.com.br,

20 de julho de 2009 | 13h53

"São uns terrores." É assim que o senador Pedro Simon (PMDB-RS) se refere às lideranças de seu partido, a quem acusa de se deixar cooptar em troca de "vantagenzinhas" e "favorzinhos". Descrente do futuro do partido, o ex-governador do Rio Grande do Sul diz que "é uma crime o que estão fazendo com partido", citando nominalmente as lideranças na Câmara (Michel Temer, presidente da Casa; Henrique Eduardo Alves, líder da bancada), no Senado (José Sarney, presidente da Casa; Renan Calheiros, líder do partido) e no governo (Geddel Vieira Lima, ministro da Integração; Edison Lobão, Minas e Energia). De acordo com Simon, o partido foi cooptado primeiro por Fernando Henrique Cardoso depois por Lula em troca de "favorzinhos" e "vantagenzinhas". "Porque nenhum partido tem interesse de ver o PMDB crescer", diz. Leia a seguir trechos da entrevista.

 

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O PMDB tem o maior número de filiados e grande penetração nos Estados. O que impede a ação coesa das forças do partido em nível nacional?

Nós não conseguimos nos livrar de um comando partidário que não tem espírito público, não tem espírito partidário, não tem a responsabilidade para ocupar os cargos. Desde quando o dr. Ulisses (Guimarães) se afastou, o partido vem caindo numa situação de irresponsabilidade. No governo Itamar (Franco), o presidente do partido (Orestes) Quércia não admitiu que o PMDB oficialmente integrasse o governo. O Itamar queria e insistiu para o PMDB indicasse o ministro da Fazenda. A direção nacional não quis. Quando assumiu o Fernando Henrique Cardoso, o PMDB foi se dando em troca de alguns cargos. O PMDB passou a ter uma vida dependente. E desde então não se fala mais em ter uma candidatura própria à Presidência da República. Durante 8 anos do governo FHC, o comando do PMDB esteve ali interessado em favorzinhos, um ministério aqui, um cargo ali, e ficou profundamente acomodado. Quando ganhou o Lula, o partido foi cooptado. Mesmo os que estavam no governo FHC, como o Renan (Calheiros), que foi ministro (da Justiça) do Fernando Henrique. Hoje a imprensa noticia - e é uma vergonha - que o PMDB é uma interrogação: quem dá mais? E ninguém sabe se é o PT ou o PSDB que vai ganhar a Presidência, mas todo mundo diz que já sabe que o PMDB vai estar no governo, seja com quem for. Essa acomodação, essa irresponsabilidade, essa imoralidade... Tanto Fernando Henrique Cardoso quanto Lula cooptaram e se agarram a pessoas que, na verdade, se identificam com esse interesse de tirar vantagenzinhas. Porque nenhum partido tem interesse de ver o PMDB crescer. Eles querem que o PMDB continue grande, com muita força, muito espaço eleitoral, mas que seja um partido de conveniência. E por que as bases não se revoltam?

Por quê?

Porque essas pessoas estão com o comando. O Geddel (Vieira Lima), com esse ministério (Integração Nacional) que ele tem na mão, ele manda na Bahia. Vê o exemplo do Simon e do Jarbas Vasconcelos. São pessoas que estão isoladas, não podem nem abrir a boca. Porque fizemos uma força enorme para marcar um congresso para estudar a candidatura própria. O presidente do partido, ainda que licenciado (deputado federal Michel Temer, SP), está ele aí brigando para ser candidato a vice, para ser o candidato do Lula.

Que medidas seriam saudáveis para harmonizar a relação entre a cúpula e as base?

Primeiro vai ter que reunir essas bases. O PMDB não faz isso. O PMDB não faz Convenção. Na última eleição, não tivemos coragem de fazer Convenção. Nem apoiamos o Lula, nem apoiamos o Alckmin. Se fizéssesmo Convenção, poderíamos ter uma candidatura própria. O PMDB não tem condição de fazer, de agir. Quem é que manda no Rio Grande do Norte? O líder da Câmara (deputado Henrique Eduardo Alves) faz o que quer e o que não quer. Quem é que manda na Bahia? É o Geddel. São pessoas que têm cargo, vantagens, distribuem uma série de coisas no sentido de manter suas estruturas. Então, por exemplo, a CPI da Petrobras. Quem é que vai ser indicado para participar? Pessoas que estão ali, acomodadas, ganhando vantagens, essa coisa toda.

Qual o impacto da crise do Senado no PMDB?

No meio dessa crise toda, nós não indicamos membros da CPI da Petrobras... meu Deus. Lamentavelmente o PMDB não está se dando conta. O PT, com toda a força, com todo o poder, botando a faca na bancada, e a bancada se rebelando. Estão lá pessoas como a ex-ministra Marina (Silva), o (Eduardo) Suplicy, o (Paulo) Paim. São pessoas que estão resistindo. Não abrem mão de dizer que o Sarney é responsável e deve sair da direção. O PMDB não faz isso. O PMDB não participa de coisa nenhuma.

O sr. já pensou em deixar o PMDB?

Eu estou indo para casa... Depois, eu não tenho para onde ir. Se analisar, hoje, qual é o partido? A grande expectativa era o PT. Eu subi no palanque, eu apoiei Lula... o Lula esteve na minha casa, jantando comigo, já presidente eleito, me convidando para ser ministro. Eu não aceitei. Mas me ofereci, como no governo Itamar, para fazer a cobertura do governo dele no Congresso. E estava disposto a isso. Até o momento que aconteceu aquele negócio com Waldomiro (Diniz, pivô do escândalo dos Correios, primeiro de uma série que culminaria com a denúncia do mensalão). Em um minuto eu estava com Lula, fui lá, entrei, disse: 'Lula, demite. Tu tens que marcar o seu governo, e a marca do seu governo é botar pra fora'. Depois o falecido senador do Amazonas (Jefferson Péres, do PDT-AM) e eu tivemos que entrar no Supremo para criar CPI, porque o Lula não deixou. Ele e o Sarney não queriam deixar. Como não iam deixar criar agora a da Petrobras.

Como é sua relação com os dirigentes do PMDB?

Nenhuma... Com a Íris (de Araújo, deputada federal por Goiás e presidente interina do partido) eu tenho falado. Infelizmente, se o presidente da Câmara (Michel Temer, deputado federal por São Paulo) tivesse renunciado e ela tivesse assumido para valer... mas não. A imprensa noticia todo dia que o Michel Temer está participando, dirigindo, fazendo tudo, ainda que licenciado.

Você tem esperança de mudar essa situação?

Não tenho. A curto prazo não tenho. Lamentavelmente. As bases têm disposição, vontade, garra, mas o comando... é um crime o que eles estão fazendo com o partido.

Eles quem?

O presidente do Senado (José Sarney, senador pelo Amapá), o líder da bancada na Câmara (Henrique Eduardo Alves, deputado pelo Rio Grande do Norte), o líder do PMDB no Senado (Renan Calheiros, senador por Alagoas). Esses são uns terrores. O Jáder (Barbalho, deputado pelo Pará), que agora é eminência parda na Câmara, esse Geddel (Vieira Lima, ministro da Integração Nacional), o ministro de Minas e Energia (Edison Lobão). Esse grupo que está aí.

Senador, muito obrigado pela entrevista

Eu aceito os pêsames.

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