É tempo de CPI; cada um cuide de si

Defesa do bolsonarismo feita por Braga Netto é criticada por militares na véspera do depoimento de Pazuello na CPI

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 10h00

Caro leitor, 

general Braga Netto chegara aos 60 anos candidato a uma reforma tranquila. Fora, no entanto, incluído em uma empresa – o governo de Jair Bolsonaro – para a qual não havia remédio. As desventuras do general lembram a figura do coronel Tamarindo, aquele de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Tamarindo substituiu o coronel Moreira César, depois de o comandante da expedição contra Canudos ser alvejado no abdome pela bala de um jagunço do Conselheiro enquanto a tropa varejava e ateava fogo às casas, formando escombros e esconderijos formidáveis para os sertanejos.

Tamarindo, escreveu Euclides, "não suportava as responsabilidades, que o oprimiam". "Maldizia talvez, mentalmente, o destino extravagante que o tornara herdeiro forçado de uma catástrofe. Não deliberava. A um oficial, que ansiosamente o interpelara sobre aquele transe, respondera com humorismo triste, rimando um dito popular do Norte: 'É tempo de murici, cada um cuide de si'." Braga Netto chegou ao governo. Logo recebeu duas missões: assumir o comitê de combate à covid-19 e assinar a demissão do delegado Maurício Valeixo, da direção da PF.

Do combate à doença pouco se viu. A não ser que os militares do Planalto esperassem derrotar o vírus “pela manobra”. Ou pensavam que um lance de dados – a cloroquina para todos, a ignorância e sabotagem das vacinas e a espera da imunidade de rebanho que mataria os fracos, preservando os fortes – fosse suficiente para enfrentar a doença mortal. Tal qual a expedição de Moreira César a Canudos, a tropa de Braga Netto foi derrotada por um adversário que parecia invisível. 

Antes, em 15 de maio de 2020, Braga Netto sacou para os jornalistas um gráfico sobre a covid-19 no mundo. Era uma das peças usadas pelos bolsonaristas no WhatsApp para minimizar a pandemia no País. Com o cálculo de mortes por cem mil habitantes, comparava os dados do Brasil com os de países com índice pior e, assim, dizia que a imprensa espalhava o pânico no País. O Brasil tinha então 15 mil mortes pela doença e o governo e seus militares se preocupavam mais com a reeleição do que com as vidas. Um ano depois, 434,8 mil delas foram ceifadas. E ainda há general que acredita nos efeitos da cloroquina ou na ivermectina...

Há quem lembre que os discípulos do general Maurice Gamelin defendiam a Linha Maginot enquanto os alemães faziam a festa em Paris. O outro combate prometido, aquele que elegia a corrupção como inimigo, recebeu de Braga Netto uma assinatura indelével. A história registra no ato de demissão do delegado Valeixo – ato denunciado como falso por Sérgio Moro – a assinatura do general de quatro estrelas no lugar daquela do ministro demissionário. Um dia antes, ele desmentira a notícia da saída de Moro. 

Faltar com a verdade ainda é a primeira das transgressões disciplinares entre os militares. Foi em razão dela que o ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves escreveu o documento "A verdade: um símbolo da honra militar", quando uma investigação concluiu que dois capitães mentiram aos seus superiores sobre um plano de colocar bombas em quartéis. Um dos atingidos pelo decisão de homologar o Conselho de Justificação ocupa hoje a Presidência da República. "Não se pode admitir a desonra e a deslealdade que do lado inimigo, jamais do lado amigo”. Eis a lição do general Leônidas.

Mas ela não se aplica aos políticos. Um ano depois do gráfico sobre a covid, Braga Netto foi com seus colegas ministros à passeata golpista organizada pelo presidente, na qual seus seguidores diziam autorizá-lo a intervir nos demais Poderes e usar as Forças Armadas contra governadores e prefeitos. Essa bolsonarice passaria despercebida pelos militares se a ela não tivesse comparecido o ministro da Defesa, cargo que Braga Netto exerce após o antigo titular da pasta, Fernando Azevedo e Silva, ser alvejado por Bolsonaro

Ao prestigiar como ministro da Defesa a manifestação golpista, Braga Netto devia ouvir as palavras do general Francisco Mamede de Brito. "Infelizmente, o referido 'projeto escolhido pela maioria', há muito tempo, foi abandonado. Sequer existiu, na prática. A desconstrução da Lava Jato, o caso Queiroz e as negociatas com o Centrão são provas cabais." Alguns poucos milhares de fazendeiros, pastores, familiares de militares e assessores do governo saíram às ruas no dia 15 para apoiar um presidente cada vez mais impopular. Tão impopular que quase ninguém notou a presença do general no evento golpista.

Ninguém consegue mobilizar a população para proteger os bolsos forrados de uma centena de militares que passaram a ganhar acima do teto de R$ 39,2 mil, ou para impedir que Flávio Bolsonaro, o filho rico do salvador da Pátria, seja investigado pela Justiça, ou ainda para proteger os R$ 3 bilhões do orçamento secreto do Centrão. É nesse ambiente que o nome de Braga Netto surge na CPI da Covid como o homem da reunião em que se tratou da mudança da bula da cloroquina. O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) apresentou requerimento para convocá-lo. Braga Netto pode ser ouvido após o general e ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

A ida de militares à Câmara para depor sobre escândalos políticos é ato raro, mesmo em democracias como nos Estados Unidos. Em 1987, o tenente-coronel Oliver North compareceu fardado e cheio de condecorações para fazer o papel de patriota cumpridor de ordens diante do Congresso. Havia se envolvido com a venda de armas para o Irã e o desvio dos lucros para abastecer os contras da Nicarágua. Pazuello devia seguir o exemplo de North e comparecer uniformizado?

É assim que alguns militares gostariam de vê-lo no Congresso. Uns porque o apoiam e acreditam que a farda galvanizaria o apoio dos demais camaradas. Outros porque desejam expor a impostura dos que foram exercer cargos civis no governo sem a oposição de seus comandantes. A exemplo do coronel americano, Pazuello é militar da ativa e a tradição manda comparecer fardado a atos judiciários – e a CPI é uma investigação contra a qual cabe até habeas corpus. Pobre Pazuello. Se fosse hoje pedir um conselho ao seu chefe, talvez, ouvisse uma versão renovada da boutade do coronel Tamarindo: ‘É tempo de CPI; cada um cuide de si’.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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