''É preciso maior afinidade com o PMDB na Saúde''

José Carvalho de Noronha: ex-secretário de Atenção à Saúde; responsável por área de forte interesse para o partido, sanitarista deixa o cargo após divergências com o ministro Temporão

Entrevista com

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

18 de julho de 2008 | 00h00

O secretário de Atenção à Saúde do governo, José Carvalho de Noronha, deixou o cargo nesta semana após divergências com o ministro José Gomes Temporão sobre o tratamento que deveria ser dado ao PMDB. O partido, que indicou o titular da Saúde, vem cobrando mais espaço e atenção.Ontem, por telefone, Noronha disse que teve dificuldades ao defender que a Saúde deveria ter afinidade programática com o partido. "É possível um diálogo maior", declarou o sanitarista, que volta à Fundação Oswaldo Cruz, no Rio. A Secretaria de Atenção à Saúde tem forte interface com Estados e municípios, por ser responsável por programas como o Samu, que atende a emergências.Temporão disse, pela assessoria, que mantém amizade de 30 anos com Noronha e que sua saída se deve a "questões pessoais". A seguir, trechos da entrevista.O que explica a saída do ministério?Se reduzirmos especulações, fica mais simples. Achei que era o momento de cuidar das minhas tarefas de professor, de ficar menos submetido a pressões, mas vou continuar defendendo o ministro Temporão, ele é meu amigo.Qual é sua opinião sobre as cobranças públicas do PMDB para que o ministério garanta mais acesso às demandas parlamentares?Em junho, antes da restrição do período eleitoral, fizemos esforço muito intenso de exame, foram mais de 1.200 pareceres técnicos sobre as emendas no meu âmbito que tivemos de adiantar, de maneira que não se repetisse o quadro muito desagradável que foi o final do ano passado, em que vários compromissos deixaram de ser cumpridos por problemas administrativos. A emenda não é isso que a imprensa, as pessoas falam. A emenda o que é, é um posto de saúde em Votuporanga, é terminar um hospital em Patos de Minas, são coisas importantes também. Claro, poderia obedecer a um processo mais racional, mas, para um sistema que ainda tem carências, isto é um processo muito importante. Talvez o partido gostaria de um entrosamento maior, o presidente do partido gostaria de mais entusiasmo. Temos ainda batalhas congressuais a serem debatidas, há um conjunto de projetos de interesse da saúde pública brasileira que a gente tem de levar em conta.O senhor via dificuldade em tratar deste assunto, em resumo.Os tempos não são favoráveis a este tipo de opinião, mas tenho de dizer o que penso. Acho que é preciso uma afinidade programática, o ministro tá ali, representando o partido, tem de ter uma afinidade de idéias, compartilhar projetos. Se você for ver a votação na Câmara da CSS (Contribuição Social da Saúde), que é controversa, apesar da divergência, a bancada do PMDB compareceu com mais de 80% dos votos a favor. Eu acho que este entrosamento entre a ação política e o Congresso é extremamente importante e eu continuo achando que os partidos políticos têm um papel importante a desempenhar.É possível um diálogo maior?É possível um diálogo maior, identificação maior, às vezes presença maior na vida do partido, talvez isto tenha faltado, talvez seja ocasião de encontrar mais este tipo de diálogo, inclusive porque isso ajuda no fortalecimento do governo, das relações do Executivo.O senhor e o ministro discutiam muito sobre isto?Acho que comentávamos com freqüência e procurei, na medida da minha inteligência, facilitar.Esta situação pode custar o cargo do ministro?Aí não acredito, aí é atribuir a posição de secretário muito peso (risos). Também acredito que o presidente Lula tem apreço pelo ministro, o ministro tem tido papel importante.O senhor via o ministro acuado?Sou do antigo MDB, e o Ulysses Guimarães dizia que no governo você vive sob pressão, e na política também. Evidente que é um ministério importante, que tem capilaridade, relação forte com Estados e municípios. E ainda mais quando os recursos escasseiam, evidente que a disputa por recurso aumenta. Mas isto é da arte, se você perguntar agora ao Tarso (Genro, da Justiça), à Dilma (Rousseff, da Casa Civil), também estão na berlinda. Quem é:José C. de NoronhaÉ mestre em medicina social e doutor em saúde coletiva pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Assumiu a Secretaria de Atenção à Saúde do ministério da Saúde emmaio de 2007.É professor do Centro de Informação Científica e Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro

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