E por que não uma estrela de Davi?

O argumento clássico dos defensores de cotas raciais é que os "negros", na média, têm níveis de renda menores que os dos "brancos". As cotas funcionariam, assim, como um meio de compensar desigualdades sociais. Permitam-me, então, uma pergunta: se o projeto aprovado ontem já reserva 50% das vagas para alunos de escolas públicas e também reserva vagas para estudantes carentes, por que ele estabelece, além disso, subcotas raciais? A pergunta tem uma única resposta, que é trágica. As cotas raciais nada têm a ver com a compensação de desigualdades sociais. Elas servem exclusivamente para separar os brasileiros segundo fronteiras de raça. No caso, dividirão os alunos de escolas públicas, filhos de trabalhadores, em "brancos" e "negros". Em cada classe do País, os jovens estudantes passarão a se identificar em termos raciais, pois o rótulo imposto carrega a promessa de vantagens ou a maldição de desvantagens. Sob um argumento falso e cínico, o Brasil caminha na direção de se converter num Estado racial. Quando a raça entra na lei e o Estado prega nas pessoas rótulos raciais, usando-os para distribuir direitos e privilégios, o racismo difunde-se nas consciências. Estamos impingindo o dogma da raça a uma geração inteira de jovens. Nas escolas, o lugar onde a crença doentia na raça deveria ser combatida, a palavra do professor pouco valerá diante do decreto superior que liga os destinos universitários e profissionais à cor da pele.Os deputados que aprovaram o projeto não estão interessados em nada disso. Eles jogam para uma platéia de militantes e ativistas de ONGs que usam o dogma da raça como uma escada de acesso ao poder político. Eles nem querem ouvir falar das experiências de países que inscreveram a raça na lei - como os EUA, a África do Sul e Ruanda. Estão em busca de articulações políticas, cabos eleitorais e clientelas. Para eles, a nação que se dane. *É sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP, é colunista de O Estado de S. Paulo

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