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José Roberto de Toledo
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É o dinheiro, gênio!

A romaria de deputados até Eduardo Cunha rareou, relatam os repórteres Daiene Cardoso e Daniel Carvalho. O que explicaria a repentina falta de fé nas mágicas do bruxo que apeou o PT do poder ao aceitar, em ato solitário, o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff? Falta de gratidão dos políticos? Por certo, mas notícia seria se isso existisse. O sumiço dos pares coincide com a prisão de quem, segundo o Ministério Público, ajudava a financiá-lo. Antes dos deputados, rareou o dinheiro.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2016 | 06h26

No período de uma semana, a Polícia Federal prendeu dois empresários muito próximos a Cunha. Além de serem interlocutores do presidente afastado da Câmara e hóspedes temporários da PF, Ricardo Magro e Lucio Bolonha Funaro foram clientes de um mesmo e notório escritório de advocacia: o Mossack Fonseca. Ambos se valeram dos serviços da firma panamenha para abrir empresas offshore em paraísos fiscais - a mesma tornada mundialmente infame pelos Panama Papers por atender de reis a traficantes.

Magro já foi advogado de Cunha e - a exemplo do ex-cliente - diz não ser sócio de empresas cujo usufruto é atribuído a ele. São propriedade de “trusts” constituídos no exterior, afirma. Nega, por exemplo, ser controlador da privatizada refinaria de Manguinhos, que Cunha teria pressionado a BR Distribuidora a recomprar, segundo o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.

Apesar de comparativamente jovem, Funaro, 42, é personagem das páginas político-policiais há uma década, desde que criou a Garanhuns Empreendimentos. Segundo Marcos Valerio, a empresa de fachada era usada para repassar recursos do mensalão petista ao antigo PL de Valdemar Costa Neto. A Justiça reconheceu crime de lavagem de dinheiro por Funaro, mas o juiz deixou de aplicar-lhe a pena prevista em lei por ele ter feito delação premiada. Sua advogada na época viria a ficar famosa: Beatriz Catta Preta.

Outro executivo ligado a Cunha tornou-se delator na Lava Jato e explicou as relações entre o braço político e o empresarial. Ex-vice presidente da Caixa, Fabio Cleto disse que cabia a Funaro cobrar empresários extorquidos e cúmplices, dar cara de lícito ao dinheiro e destiná-lo a quem o chefe determinasse. A ele, Cleto, cabia aprovar projetos do esquema para serem bancados pelo Fundo de Investimentos do FGTS (o “do trabalhador”).

Responsável pela indicação de Cleto para a Caixa desde antes de ser presidente da Câmara, Cunha recebia-o semanalmente em sua casa, sempre às terças-feiras, relatou o delator. Escolhia pelo valor quais projetos seriam financiados e mandava ele “melar” os de interesse do PT. Para garantir sua lealdade, mantinha uma carta de demissão sem data e assinada por Cleto na gaveta.

Além do modo de operar da organização, o ex-vice presidente da Caixa entregou também o tamanho da operação: 1% do valor de todos os projetos. Segundo ele, Cunha ficava com 80% da propina paga pelos empresários. Não há carros de luxo, hotéis, jantares em restaurantes caros e joias para a esposa que consumam todo esse dinheiro. Os recursos destinavam-se a manter o poder.

Como demonstrou o repórter Daniel Bramatti, ninguém é cacique do PMDB de graça. Dois em cada três reais investidos no PMDB nas campanhas de 2010 e 2014 para senador e governador foram parar nos Estados dos peemedebistas mais poderosos. O Rio de Cunha, o Maranhão de José Sarney e Edison Lobão, o Rio Grande do Norte de Henrique Eduardo Alves, as Alagoas de Renan Calheiros, o Ceará de Eunício Oliveira e Roraima de Romero Jucá receberam desproporcionalmente mais recursos do que têm de eleitores.

No sistema brasileiro, não se ganha eleição sem gastar muito. Cunha descobriu na fartura e está confirmando na carência que só tem poder quem arrecada e redistribui boa parte do arrecadado. Todo o poder emana do dinheiro e em seu nome é exercido.

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