FOTO TIAGO QUEIROZ/ ESTADÃO
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‘É necessário que cada boato seja desmentido’, diz professor da USP

Para Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, em tempo de ‘pós-verdade’ mentiras devem virar notícia para serem desmentidas

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 03h00

Em dias de noticiário político quente, boatos e notícias falsas são compartilhadas indiscriminadamente – e, não raro, muito mais vezes do que reportagens assinadas, com fontes identificadas e baseadas em checagem e documentos. Por que o boato político tem se espalhado de forma tão virulenta? Quem ganha quando alguma notícia falsa é tratada como fato pelas redes sociais? E o que isso tem a ver com a polarização política?

O professor de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, Pablo Ortellado, tem se dedicado ao assunto e adverte: “A imprensa precisa colocar o boato na pauta”. Para ele, as notícias falsas são compartilhadas porque elas confirmam posições apaixonadas que o leitor já tem.

O enfrentamento político, segundo Ortellado, teria criado duas bolhas que não se conversam e que se atacam sem mediação. “Os grupos praticamente só leem sites e blogs que estão de acordo com seu pensamento político. São duas bolhas políticas. Nada conversa com nada. Isso é um desastre para o debate brasileiro.”

É possível quantificar as notícias falsas que circulam por dia?

Das cerca de 3,5 mil notícias relacionadas à política produzidas em um dia, o Brasil lê e compartilha 200 (tendo o Facebook como plataforma). Em um dia quente (com notícias de forte impacto), a polarização aumenta e sites com notícias não verificadas ou falsas sempre atingem o top 10 das mais lidas. Já aconteceu de, entre as dez mais lidas, seis serem falsas ou não verificáveis. 

As redes sociais são o criadouro desse tipo de notícia?

Depois da televisão, o Facebook é a principal fonte de informação dos brasileiros. O Facebook não tem uma organização hierárquica das notícias. O leitor, simplesmente, abre e vai clicando. O papel editorial é feito pelo logaritmo do Facebook. Então, quem entra no jogo da polarização, das manchetes fortes e com informação não verificada, acaba tendo mais compartilhamentos. E isso aparece tanto no campo da direita como no da esquerda.

Quem financia blogs e sites que espalham notícias falsas?

A pesquisa não se deteve nisso, mas a minha impressão é que não existem muitos financiadores ou políticos por trás. Não é preciso muito dinheiro para manter um site desses. A gente sabe que tem aposentado, estudante, gente comum criando notícias assim. Claro, durante um período eleitoral, as regras mudam, existe o trabalho pago. Mas, em período não eleitoral, acho que não é significativo. 

Como identificar notícia falsa?

Não existe uma notícia bombástica que só um veículo deu. Uma notícia tem de repercutir em todos os veículos. Se não repercute é indício de que pode ser falsa. Às vezes, basta dar um “Google” para desmenti-las. Também é possível verificar as fontes na própria notícia. O leitor precisa se perguntar coisas como: “segundo quem?”, “tem algum relatório ou prova?”

Por que o boato é tão consumido e difundido? 

É difusão de informação não verificada como instrumento político. A sociedade está polarizada. Então, o que temos são “máquinas” produzindo informação de combate. E essas notícias são compartilhadas porque elas confirmam posições apaixonadas que o eleitor já tem. Trata-se de um lado desqualificando o outro.

Estamos falando de uma prática de direita ou de esquerda?

Não é uma tática de direita ou de esquerda. Mas faz parte da guerra política. Os dois lados produzem e disseminam informações não verificadas porque buscam a hegemonia na interpretação dos fatos.

Que tipo de leitor espalha esse boato?

Não tem esse recorte. Pessoas sofisticadas, com muitos anos de estudo, cujo dia a dia é ser cético, difundem notícias de quinta categoria porque representam ideias de direita ou de esquerda que elas acreditam. Aquela notícia vira uma arma de combate. Ele compartilha porque é um soldado em guerra. Ele só quer se indignar, falar que não sei quem é “coxinha” ou fulano é petista, quer mostrar que é contra “essa gente cruel que quer destruir 20 anos de conquistas sociais” ou que é “contra a quadrilha que está saqueando o Estado...”

O WhatsApp é relevante nesse contexto de boataria política?

Muito relevante. O boato de WhatsApp tem sempre uma legitimação. Esses boatos costumam começar assim: “Meu primo militar trabalha em Paraty e me contou que o sargento fulano...” Tem sempre a chancela de uma autoridade não verificável. Então, ele se espalha muito rapidamente e com força. A imprensa precisa colocar o boato na pauta. Tem de falar que tal coisa não existe, deixá-los correr é um desserviço. 

Como os jornalistas precisam reagir aos boatos?

A tendência do cidadão é procurar na grande mídia a confirmação daquilo que ele leu. Como a imprensa não difunde o boato, ela perde a credibilidade. A pessoa acredita no boato mas, como não encontra a confirmação dele na imprensa, costuma dizer coisas como: “olha, que vendidos...”, “estão fazendo o jogo desse ou daquele partido...”. Daí, você tem essas “certezas” espalhadas pela sociedade de que o Lulinha é dono da Friboi ou que o juiz Sérgio Moro é filiado ao PSDB. 

Então é preciso repercuti-los?

A imprensa precisa falar dos boatos. O boato que todo mundo recebe é notícia. Os boatos precisam virar notícia e serem desmentidos. Tenho certeza de que é necessário desmentir cada boato. O crescimento de notícias falsas não é um fenômeno marginal, é fenômeno de massa. É gravíssimo.

Quem ganha com isso?

Para o jogo político, as notícias falsas são úteis. Os grupos políticos fizeram disso uma arma. São os beneficiários. Os militantes compram essas notícias – acredito até que sem cinismo. Trata-se de uma guerra política com dois campos que produzem informação. As pessoas viraram robôs. Se a manchete confirma o que elas acreditam, a notícia é passada adiante. 

Não existe mais espaço para a isenção?

O “isentão” virou uma desqualificação. O “isentão” ou é um falso petista ou um falso “coxinha”. Antes, ser isento era qualidade. Hoje, não. Ele é desqualificado pelos dois lados. 

Vem daí o que hoje chamamos de bolha? Cada um na sua... 

O pior é que não tem nada fora da bolha. Não existe mediação entre os lados. Nós chamamos esses lados de antipetistas e anti-antipetistas. Os grupos praticamente só leem sites e blogs que estão de acordo com seu pensamento político. Nada conversa com nada. Isso é um desastre para o debate brasileiro. Por incrível que pareça, o que está mais próximo de uma mediação com esses campos é o ambientalismo.

Então Marina Silva (Rede) encontrou um nicho?

Para as eleições de 2018, a aposta que a Marina Silva fez pode ser boa. Só o ambientalismo aparece como uma espécie de consenso. Só não sei se esse ambiente político vai tolerar uma terceira força.

Quais são os temas mais recorrentes dentro dessas bolhas?

Vivemos a chamada guerra cultural. Esse fenômeno apareceu primeiro nos EUA e depois foi exportado. Os temas morais estão no centro do debate político. Aborto, legalização das drogas, pena de morte, casamento gay... Assuntos que eram periféricos, mas que, agora, estão no centro do debate.

Quem está vencendo esse embate?

Quem joga os jogo das guerras culturais. Do lado da esquerda, o PT precisou incorporar o feminismo, as questões LGBT. Na direita, o MBL, que se dizia liberal e, em seu gene, não discutia aborto ou casamento gay.

A eleição de Donald Trump nos EUA faz parte desse contexto? 

Totalmente. O Donald Trump é o cara que joga esse jogo abertamente. O Barack Obama também era. A Hillary Clinton, por exemplo, ainda era o jogo antigo – por isso ela não teve chance. Ela estava fora dessa gramática.

Quem no Brasil sabe jogar o jogo novo?

O deputado Jair Bolsonaro joga esse jogo novo. É preciso levar uma candidatura dessas a sério. Todo mundo falava que o Trump era uma piada, que não tinha chance, que não era pra valer... Não quer dizer que o Bolsonaro vá ganhar a eleição. Não adianta jogar esse jogo sem apoio financeiro ou tempo de TV. Mas ele é um candidato competitivo.

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