E-mail prova laços antigos entre Paulinho e BNDES

Mensagem de consultoria a ex-conselheiro do banco mostra indício de influência do deputado

Roberto Almeida, de O Estado de S. Paulo,

07 de junho de 2008 | 23h10

Um e-mail capturado pelos peritos da Polícia Federal, datado de 26 de janeiro de 2005, faz um laço de mais de três anos entre o esquema de desvio de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força. A mensagem, enviada por Marcos Mantovani, da Progus Consultoria, ao lobista e então conselheiro do banco estatal João Pedro de Moura informa que Gaspar (supostamente José Gaspar, vice-presidente do PDT paulista) "achava importante" apresentar o esquema da consultoria a Paulinho. Veja também:Entenda a operação Santa TerezaLeia a íntegra do relatório da PFGrampo da PF liga Paulinho ao caso BNDES  A Progus cobrava uma "taxa de sucesso" sobre financiamentos concedidos pelo BNDES e, segundo os federais, repartia o valor entre os envolvidos na liberação da verba. É o que Mantovani descreve, em outro e-mail obtido pela PF, como "um esquema de parceria típica de negócios e política", no qual explica a sistemática da atuação da consultoria a um suposto funcionário.Para comprovar a relação entre o parlamentar e os negócios praticados pela Progus, os federais lembram que foram encontradas, na sede da empresa, planilhas com referências a Paulinho e Gaspar. E ressaltam que, segundo conversa grampeada do réu Manuel Fernandes de Bastos, o Maneco - que é dono da casa de prostituição WE Original e está foragido -, os dois cobravam "custo político" para obter verbas do BNDES. Segundo a PF, Paulinho teria recebido mais de R$ 100 mil por três operações do banco estatal.A mensagem que aponta o laço de mais de três anos entre o deputado e Mantovani, e pede para o lobista Moura "agitar" um encontro, é apresentada no "Relatório de Inteligência Policial - Deputado Paulinho - ‘PA’", da PF. O documento tem 89 páginas e relaciona ainda outras mensagens eletrônicas com teor semelhante, corroborando que houve continuidade nos contatos entre o deputado e o consultor, incluindo o período de negociação e liberação das verbas para a Prefeitura de Praia Grande (R$ 123 milhões) e as Lojas Marisa (R$ 81,4 milhões), que estão sob suspeita. No dia 4 de agosto de 2006, Mantovani avisa a Mara, da Força Sindical, que recebeu uma ligação de Paulinho a respeito de uma visita a uma empresa no bairro paulistano do Bom Retiro. A mensagem, endereçada ao receptor "Paulinho - Força Sindical - Aos cuidados de Mara", pede esclarecimentos sobre quem Mantovani deveria procurar no local. No mesmo dia, em outro e-mail, o consultor pede a Mara que Gaspar - supostamente José Gaspar - retorne sua ligação.Já em 27 de setembro de 2006, pouco antes da eleição, Mantovani chegou a pedir a uma interlocutora não identificada votos para Paulinho, tratando-o como "amigo do peito". "Aliás, se não tem para quem votar para Deputado Federal, vote no meu amigo do peito, Paulinho da Força Sindical..1212.. beijos", diz o e-mail.Na única entrevista em que falou abertamente sobre sua relação com os réus da Operação Santa Tereza, no dia 9 de maio, Paulinho negou conhecer Mantovani. A declaração do deputado já havia sido desmentida por grampo da PF, revelado pelo Estado, em que ele mesmo cita o empresário e uma reunião no escritório da Progus, nas proximidades da Avenida Paulista. O advogado de Paulinho, Antonio Rosella, que afirma que as acusações da PF são "absurdas", disse desconhecer a declaração do deputado e criticou o que denomina de "grampolândia". O advogado de Mantovani, Carlos Kauffmann, garante que todos os projetos feitos pela Progus estão dentro da legalidade.ContatosO relatório da PF descreve ainda ligações estreitas de Paulinho com pelo menos outros três membros da suposta organização criminosa. O documento discrimina, em detalhes, telefonemas realizados para o número do próprio deputado e descreve as ocasiões em que ele é citado pelos interlocutores. São chamadas feitas pelos ex-conselheiros do BNDES João Pedro de Moura e Ricardo Tosto, indicados para o cargo pela Força Sindical, presidida por Paulinho, e pelo coronel da PM Wilson Consani Júnior, que supostamente negociava com prefeituras paulistas para obter mais contratos para a Progus. Todos são réus da Santa Tereza.Nos comentários sobre os grampos, a PF crava a relação ativa entre Moura e o parlamentar a partir de uma gravação de 25 de fevereiro de 2008, na qual o lobista disse estar a caminho de Praia Grande para "resolver uma coisa para o Paulinho". A data coincide com o período de negociações para a liberação da verba do BNDES para a prefeitura da cidade.Há ainda um caso do dia 27 de fevereiro, relatado pela PF, em que o motorista de Paulinho busca Moura no aeroporto para uma reunião na cidade de Caieiras. Apesar disso, o deputado alega que Moura é apenas seu ex-assessor.  

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