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Dudu faz as malas

Jogo combinado entre Bolsonaro e o Senado prepara terreno para o filho

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2019 | 03h00

A reforma da Previdência vira refém da conveniência de tempo e agenda dos senadores. Vetos são derrubados sem que o presidente que os proferiu nem sequer lamente. O líder do governo no Senado é investigado sob a acusação de ter recebido propina quando era, vejam só, ministro de ninguém menos que Dilma Rousseff.

A sequência de fatos, todos das últimas duas semanas, contraria dois pilares da campanha de Jair Bolsonaro, comprados pelo valor de face pelo eleitorado traumatizado pelo PT: a proposta liberal-reformista na economia e o combate implacável à corrupção e à velha política.

Pouco importa. Essas promessas e a fidelidade a uma parcela do eleitorado foram colocadas em segundo plano diante da prioridade do momento: preparar o terreno no Senado para o envio, mais de dois meses depois do primeiro anúncio, da indicação do terceiro filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, à Embaixada do Brasil em Washington.

Não que seja uma preparação de todo planejada, como nada é na parafernália de conceitos e métodos do bolsonarismo. Ao mesmo tempo em que é necessário fidelizar senadores para a aprovação de Eduardo, seu irmão Carlos fustiga o partido com a segunda maior bancada na Casa, o Podemos – pela primitiva razão de que a sigla cresce em cima do PSL e pode virar morada de algum adversário do pai em 2022, como o temido Sérgio Moro.

O próprio candidato a embaixador, que de diplomático não tem absolutamente nada, postou há algumas semanas em suas redes sociais vídeo de uma youtuber bolsonarista com pesadas críticas a alguns de seus potenciais eleitores.

Mas isso são filigranas. O verdadeiro jogo de bastidores para que Eduardo passe no Senado, a despeito de sua completa falta de qualificação para um dos principais postos da diplomacia do País, passa pelo acordo nos grandes temas, descritos no início deste texto, e é feito em conexão direta entre o Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Eleito para o comando da Casa por ter fincado o pé como aquele capaz de peitar Renan Calheiros, o até então anônimo Alcolumbre foi comprado pelo alvoroço das redes sociais sem que nenhum dos que torciam por ele nem sequer o conhecessem. Essa tomada de partido imediata, na base da escolha binária, sem nem levar em conta o perfil da Wikipédia dos candidatos, levou à eleição de bancadas inteiras de lavradores de redes sociais e até de governadores, como Wilson Witzel.

Não foi diferente com Alcolumbre, que, agora no comando, vai se mostrando um político das antigas – justiça seja feita, ele nem tentou vestir o figurino de renovador. No seu acerto com Bolsonaro entraram cargos no Cade, a garantia de execução de emendas e a proteção a Bezerra Coelho, outro da velha política, nesse caso inclusive aliado da temida esquerda, assimilado pelo bolsonarismo pragmático.

No jogo em que interesses corporativos do Senado e os familiares dos Bolsonaro são colocados à frente dos compromissos de campanha, a reforma da Previdência vai virando uma pauta secundária, que pode ser ou não votada a partir de conveniências. A previsão de que seja promulgada no dia 10 de outubro já parece otimista diante deste quadro.

Quanto à indicação de Eduardo, parece aguardar o momento em que nada lhe obstrua o caminho, de reformas a CPIs indigestas para os também novos aliados do Judiciário. Davi vai na frente, limpando o trilho para o terceiro filho, enquanto este gasta seu tempo entre conversas ao pé de ouvido com senadores, publicações nonsense no Twitter em que desfila uma bizarra doutrina armamentista a partir de uma escultura na entrada da ONU e viagens turísticas ao país no qual deve vir a morar logo mais, graças a um presentão do papai e do tio Davi.

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