Dossiê pode comprovar doações ''por fora''

Tabelas e planilhas têm nomes de instituições, obras, siglas e políticos

Fausto Macedo, Marcelo Godoy e Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 00h00

Na residência de Pietro Francesco Giavina Bianchi, executivo da Camargo Corrêa, a Operação Castelo de Areia encontrou dossiê que pode comprovar esquema de doações eleitorais "por fora". São 142 folhas de papel sulfite, 54 delas "contendo impressões de tabelas e planilhas com nomes de instituições, obras, partidos políticos e deputados, relacionados a valores respectivos em dólares e reais". A informação consta de relatório secreto de buscas da Polícia Federal.No dia 25 de março, quando a operação foi deflagrada por ordem judicial, os federais sitiaram a empreiteira e vasculharam todos os gabinetes, mesas e armários da diretoria. O arrastão da PF teve início às 6 horas e incluiu os endereços domiciliares de quatro executivos - Fernando Dias Gomes, Dárcio Brunato, Raggi Badra Neto e Pietro Bianchi. Todos foram capturados pela Castelo de Areia, mas três dias depois ganharam a liberdade por decisão do Tribunal Regional Federal.A delegada da PF Karina Murakami Souza relacionou e lacrou todos os itens recolhidos na casa de Bianchi, apontado como um dos integrantes de suposta organização criminosa para lavagem de dinheiro, evasão de divisas e crimes financeiros.Foi anexada ao relatório anotação a mão feita por um escrivão que participou da varredura: "No início dos trabalhos foram selecionados alguns documentos, os quais foram colocados em cima da mesa. Um pouco depois disso, o sr. Pietro, que estava naquele cômodo, foi surpreendido pelo EPF (escrivão policial federal) Toscano tentando ocultar o documento que foi arrecadado no item 01."A papelada com nomes e repasses foi encontrada na Rua Ribeiro Lisboa, Jardim Morumbi, onde mora Pietro Bianchi. Em seu escritório pessoal, os federais recolheram o que tanto procuravam. Havia pelo menos dois meses que a PF mirava esses documentos, sobre os quais tinha apenas referências esparsas - captadas em diálogos que o grampo pegou.Uma interceptação, de 21 de janeiro, flagrou Fernando Gomes comunicando a Dárcio Brunato sobre "um pen drive com todas as contribuições eleitorais". Outro grampo indicava que Bianchi também teria cópia de planilhas com lista de políticos que podem ter recebido propinas. O pen drive e as planilhas eram os alvos prioritários da Castelo de Areia.O relatório de buscas descreve em 13 itens tudo o que foi arrecadado pela força-tarefa. O inteiro teor de cada capítulo é um segredo que a PF guarda a sete chaves. Os analistas esmiúçam ponto a ponto o dossiê.PLANILHAO item 1 do calhamaço revela: "(Uma) folha de papel A4 contendo planilha com siglas e nomes de empresas, referente ao período 1994-2004, com respectivos valores, expressos em dólares, encontrada no escritório."O item 2: "45 folhas de papel A4 contendo impressões de siglas relacionadas a empresas e instituições com respectivos valores em reais e dólares, encontradas no escritório."O item 3 é o que indica nomes de parlamentares.O 4 são 42 folhas de papel A4 "contendo impressões de datas, códigos, valores em reais e dólares e respectivas taxas de conversão".Também foram recolhidas 3 pastas de plástico "contendo documentos relativos a contas bancárias no exterior e movimentações financeiras".A sala de Brunato na sede da construtora, na Rua Funchal, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, foi revistada pela PF. Ali, os federais apreenderam "documentos relacionados a campanha eleitoral". Na mesa da secretária Darcy Flores Alvarenga foram encontradas instruções para apagar relatórios de fax.Segundo a PF, o aparelho era usado para confirmar supostas remessas ilícitas para o exterior. Quem os enviava com frequência era Kurt Paul Pickel, acusado de garantir aos executivos da Camargo Corrêa contatos com doleiros.Na sala de Pietro, havia instruções sobre "proteção de pen drive", que, segundo interceptações telefônicas, era o meio tecnológico usado pelo executivo para guardar arquivos sobre doações de campanha.Relatório da PF assinala: "Pietro diz que possui uma pasta com tais contribuições, constando duas formas de contribuições, a oficial e a ?por fora?". Pietro guardava em seu "cofre grande" uma relação "referente a eleições 2006", encontrada pela equipe 6 de buscas, comandada por Edson Fabio Moreira. Lá havia ainda dólares, euros e joias e relógios.ARMASAo todo, a Castelo de Areia recolheu 9 notebooks, 17 discos rígidos, 40 pen drives e um celular criptografado. Os agentes também relataram ter encontrado uma caixa de munição calibre 380, 6 espingardas e carabinas - o executivo que detinha as armas apresentou guia do Exército e registro que permitiam a posse do material.Os federais apreenderam ainda dezenas de documentos sobre obras da construtora em São Paulo, no Amazonas, no Ceará, em Pernambuco, na Bahia e em Mato Grosso do Sul. Localizaram documentos sobre supostas movimentações bancárias na Suíça, no Suriname, em Luxemburgo, além de instruções para remessas de divisas para o exterior. Foi para investigar os crimes financeiros que, segundo a PF, a Operação Castelo de Areia foi deflagrada.

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