Doria se transforma em 'João', ignora Eduardo Leite e faz campanha no Nordeste

Com o PSDB cada vez mais dividido, propaganda partidária que vai ao ar na TV a partir do próximo dia 26 mostrará o ex-governador paulista no figurino 'gente como a gente'

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2022 | 15h36
Atualizado 07 de abril de 2022 | 20h09

Caro leitor,

João Doria agora é só João. É assim que a campanha do ex-governador de São Paulo vai apresentá-lo aos eleitores, na tentativa de popularizar sua imagem como o verdadeiro pré-candidato do PSDB à Presidência. Diante de um PSDB cada vez mais dividido e com o ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite se movimentando para ocupar espaço na disputa, a equipe de Doria vai mirar em João, um homem desconhecido até agora.

A propaganda do PSDB que irá ao ar na TV a partir do próximo dia 26 mostrará o ex-governador paulista no figurino “gente como a gente”. A ideia da equipe de Doria é contar um pouco de sua história como a de uma pessoa que não nasceu em berço de ouro, teve o pai cassado pela ditadura militar e batalhou na vida. Volta à cena, assim, o “João trabalhador” da campanha de 2018, quando ele concorreu ao Palácio dos Bandeirantes. Agora, porém, embalado pelo slogan de “pai da vacina” contra o coronavírus.

O problema é que, embora tenha vencido as prévias do PSDB para escolha do candidato ao Palácio do Planalto, em novembro, Doria enfrenta resistências no próprio partido. A ala do PSDB que prega o apoio a Leite, no entanto, é minimizada por aliados do paulista. O núcleo da campanha de Doria chama o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), ironicamente, de “guru do guri”. Desafeto do ex-governador de São Paulo, Aécio defende a candidatura de Leite.

Um dia depois da reunião do MDB, PSDB, União Brasil e Cidadania que decidiu lançar uma chapa única à Presidência, Doria continuou agindo como se não houvesse crise nas fileiras tucanas e Leite não representasse uma pedra em seu caminho. Não acusou o golpe nem mesmo após o encontro entre o gaúcho e a senadora Simone Tebet (MDB-MS), nesta quarta-feira, 6, em Brasília.

Os dois posaram para fotos no gabinete dela. Passaram a impressão de que estava formada ali a dobradinha da terceira via. No mesmo dia, o ex-governador de São Paulo apareceu sorridente, abraçado à senadora Eliziane Gama (Cidadania), que tem sua base eleitoral no Maranhão. Na mensagem subliminar, a defesa de uma mulher para vice na chapa.  Todos agora estão de olho no eleitorado feminino. Se for do Nordeste, melhor ainda.

Em conversas com correligionários, Doria aprovou a decisão dos quatro partidos de antecipar o anúncio do candidato único da terceira via para 18 de maio. A convenção do PSDB será em julho e o ex-governador afirma não haver chance de revogar as prévias, que custaram R$ 11 milhões. No último dia 27,  Doria se referiu à articulação de uma parte do tucanato para tirá-lo da disputa como “tentativa torpe e vil de corroer a democracia e fragilizar o PSDB".

O MDB também enfrenta racha interno e Tebet não tem unanimidade. Tanto é assim que líderes de 13 diretórios do MDB, principalmente no Nordeste, querem anunciar o apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda no primeiro turno. Embora tenha perdido as prévias para Doria, Leite já indicou que aceita ser o vice numa chapa liderada por Tebet.

Na prática, a terceira via que tenta se apresentar como alternativa à polarização entre Lula e o presidente Jair Bolsonaro mais parece uma “via crucis”. Agora, o deputado Luciano Bivar, que comanda o União Brasil, deve lançar seu próprio nome para análise do grupo. O ex-juiz Sérgio Moro também se filiou ao União, mas está isolado nesse processo.

Batizado por aliados como “campeão da segunda divisão”, o  candidato do PDT, Ciro Gomes, busca apoio em várias frentes e faz de tudo para se consolidar na disputa. Ciro diz, porém, não enxergar projeto no chamado “centro democrático” que não seja a negação de Lula e Bolsonaro.

É nesse caldeirão de vaidades que a campanha de Doria quer tirar proveito daquilo que é associado a ele como rejeição. O “marqueteiro”, “almofadinha” e “calcinha apertada”, como o definiu Bolsonaro, vai se transformar no político simples, que põe “a mão na massa” e apresenta soluções.

A nova estratégia vai aparecer ainda neste fim de semana, quando Doria visitará Salvador e Rio de Contas (BA), cidade de seu pai, que foi deputado federal. Celeiro de votos de Lula até hoje, o Nordeste é a segunda maior região do País em número de eleitores, só perdendo para o Sudeste. É por isso que João encarnará ali o seu novo personagem.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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