Reprodução/TV Estadão
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Governadores dizem que Brasil tem 'vácuo de liderança' durante pandemia

Governadores de São Paulo, Maranhão, Pará e Espírito Santo criticaram Bolsonaro em painel da Brazil Conference

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2020 | 18h40
Atualizado 07 de maio de 2020 | 22h15

Ao apostar no enfrentamento político mesmo em meio a uma pandemia, o presidente Jair Bolsonaro contribui para piorar a situação do País no combate à covid-19. Esta é avaliação dos governadores João Doria (PSDB-SP), Flávio Dino (PCdoB-MA), Renato Casagrande (PSB-ES) e Helder Barbalho (MDB-PA). Os quatro participaram na quinta, 7, de um painel online da Brazil Conference at Harvard & MIT, evento anual da comunidade de estudantes brasileiros em Boston que neste ano acontece por videoconferência e tem cobertura exclusiva do Estado.

Os quatro fizeram críticas à forma como o presidente tem se comportado em relação ao coronavírus e falaram em “vácuo de liderança” e falta de “lealdade federativa” por parte de Bolsonaro. Eles criticaram discursos que contrapõem o cuidado com a saúde pública e a recuperação econômica. 

O governador paulista disse que a postura do presidente é uma tentativa de colocar a população contra os governadores, o que dificulta o controle da doença. “(O comportamento de Bolsonaro) gera um segundo enfrentamento a governadores e prefeitos, que é de convencer o população sobre o isolamento social. Os 27 governadores do Brasil estão unidos em defesa da vida e das suas populações e em função das atitudes erráticas do presidente”, disse Doria. “Bolsonaro contribuiu para aproximar os governadores. A prioridade agora é a saúde, não é a política. E não é possível recuperar a economia com cemitérios lotados.”

“É preciso haver lealdade federativa. Não dá para transferir toda a responsabilidade para cima dos governadores”, disse Dino. "Há uma tentativa de transferir o desemprego, a desocupação, daqui a pouco até o dólar estratosférico é culpa do Helder”.

Barbalho, que chegou a contrair a doença, afirmou que o único “adversário” a ser combatido neste momento é o vírus. “Todos estamos expostos ao contágio. Quando se cria um vácuo de liderança ou se estabelece um conflito de mensagem, eu fico imaginando como o cidadão no interior do Estado se pergunta o que deve fazer”, afirmou o paraense. “O Brasil só deve ter um adversário, que é o novo coronavírus. Qualquer outro adversário que a gente escolha nesse momento é um desserviço.”

Para o governador capixaba, Bolsonaro optou o embate político desde o início de seu mandato e sente falta de uma orientação clara do governo federal em relação à crise. “Importante registrar nossa dificuldade como gestor pela ausência de orientação clara do governo federal em relação do coronavírus”, disse Casagrande. “O presidente sempre fez opção pelo enfrentamento político, em um ano e alguns meses estamos sempre vendo que este é o estilo dele para alimentar sua rede de robôs e orgânicas.”

Os governadores repercutiram a “marcha de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF) ao lado de empresários nesta quinta, com o objetivo de constranger o presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, ao alertá-lo sobre os riscos de o Brasil “virar uma Venezuela” com os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a economia. “Um lobby inédito”, disse Flávio Dino. “O presidente consegue fazer ataques à estrutura federativa e à estrutura dos Três Poderes. Ele quis matar a federação e violar os Três Poderes.”

Eles também falaram sobre o futuro. Para Casagrande, a crise deve fazer Estados atentarem para inovações. “Cada crise gera uma oportunidade. Essa deixará marcas profundas, mas ela também apontará caminhos. Temos que aproveitar o caminho do governo digital, da incorporação da tecnologia, da integração dos Poderes”.

Impeachment de Bolsonaro

Questionados pela mediadora, a jornalista Andreza Matais, se apoiariam um processo de impeachment contra Bolsonaro neste momento, os quatro disseram que o foco no momento é a crise do coronavírus, mas defenderam investigações. “A prioridade é o vírus, mas isso não é passagem livre para o presidente cometer erros”, disse Casagrande. Para Doria, o presidente deve ser algo de mais pedidos além dos 31 já protocolados no Congresso. “Pela escalada autoritária, até agosto, setembro ou outubro, serão muito mais pedidos". Helder complementou: “Agora todos tem que estar focados no enfrentamento ao vírus. A investigação deve acontecer.”

“Também acho que hoje temos uma atividade que toma nosso cotiano e deveria tomar o dia a dia do presidente”, disse Dino. Ele comentou o depoimento do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro. Em sua opinião, uma prova que poderá ser usada contra Bolsonaro. 

"Temos no momento um presidente investigado no STF e se recusando a apresentar provas. Temos este fato. Temos as representações por crime de responsabilidade. Não há dúvida que há razoabilidade para a apreciação disso no Congresso", disse Dino. "O depoimento Moro foi cauteloso, mas ele reitera que houve cometimento na ótica dele um ato ilícito no Direito Pinal e no crime de responsabilidade. Temos elementos de obstrução de justiça, ingerêcia nos outros poderes. As afirmações de Sergio Moro estão provados. O depoimento dele é prova. A ameaça de tirar (Maurício) Valeixo (ex-diretor da Polícia Federal) de confirmou. Foi uma ingerência não só anunciada, mas realizada." 

A Brazil Conference continua nesta sexta, 8. Às 15h, o jornalista Pedro Bial entrevista o filósofo e professor de Harvard Michael Sandel para falar sobre ‘ética em tempos de pandemia’.  Às 19h, será transmitida a fala do Prêmio Nobel de Economia em 2019, Michael Kremer, sobre desigualdade econômica.

Confira a programação confirmada:

Ética em tempos de pandemia, 8/5, 15h (em inglês, versão com legenda em português a ser disponibilizada nos dias seguintes)

Michael Sandel (Filósofo e Professor de Harvard) entrevistado por Pedro Bial

Estudo da desigualdade econômica e impacto do Covid-19, 8/5, 17h (gravação)

Michael Kremer (Prêmio Nobel de Economia em 2019)

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